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28 de jul de 2010

BILHETES SUICIDAS:DÉA ROS


ilhetes suicidas

Os bilhetes estão reproduzidos abaixo, com nomes fictícios, ordenados por idades e separados pelos gêneros masculino e feminino. Na análise, visando facilitar localizá-los rapidamente, sempre que quiser ou se fizer necessário, após a citação de cada parte dos bilhetes serão citados entre parênteses o sexo (M = Masculino e F = Feminino) e a idade de quem os escreveu. Os outros dados - cor, meio, forma da mensagem e observações - estão colocados de acordo com as indicações do perito e foram mantidos, ainda que estejam imprecisos, porque mesmo assim podem auxiliar na análise.

Na tentativa de analisar os conteúdos dos bilhetes, foi testado o método de agrupar as palavras em unidades de núcleos de pensamento ou significação. Inicialmente, analisou-se uma carta de um jovem suicida reproduzida no livro "Meu pai me matou" de autoria do psiquiatra Haim Grunspun. O método se mostrou fecundo encontrando como núcleo de pensamento a palavra vida, aumentando a dúvida levantada pelo autor a respeito de se tratar de suicídio ou assassinato. Entretanto, a posteriori, a técnica se apresentou limitadora na análise dos bilhetes coletados para este estudo porque há bilhetes curtos, sem significados claros, sem repetições de palavras ou idéias, dificultando que se estabeleça os núcleos de pensamento do discurso. Optou-se, então, em construir uma estratégia de análise para captar as riquezas e as complexidades das mensagens, registrando o que é comum, o que é insólito, o que é peculiar e o que é contraditório, sem perder o objetivo de que o suicidado procura através de seu ato comunicar-se com a sociedade.

Assim, foram feitas, passo a passo, diferentes análises: análise das palavras utilizadas pelo suicidado para se referir ao suicídio, análise por categorias temáticas emergentes (atividade, metamorfose, família, religião, Estado, sentimentos, etc), análise do interlocutor (suicidado escreveu para pessoa da família, autoridades políticas ou religiosas, etc) e análise das intenções do suicidado (despedida, acusação, conforto, testamento, etc); sempre procurando privilegiar os sentimentos e a inserção social, reconhecendo que as reflexões estão limitadas pelas teorias que as orientam.

As fotos foram analisadas para se obter dados sobre a preparação (roupa, local, higiene corporal, etc) e a maneira como ocorreu o suicídio, o porquê do uso de determinado meio destrutivo e, mesmo, gestos fixados na imobilidade do corpo. Por exemplo, analisando a foto de um jovem, foi possível perceber, auxiliado pelo relato do perito, que ele teve o cuidado de enfaixar o rosto para não deformá-lo com o tiro de revólver. Seria isto uma demonstração de vaidade? Era necessário deixar o corpo comunicando sua beleza para o mundo dos vivos? Será que pensava em retornar ao mundo dos vivos?

A intenção é conseguir, qualitativamente, inferir uma realidade além da realidade aparente, produzindo uma síntese de como esta realidade se apresenta e, a partir daí, inferir como foi vivida pelo suicidado, o qual se manifestou através de representações sociais. O pressuposto aqui é tentar captar a representação social através das fotografias e dos conteúdos das mensagens dos suicidados, manifestações espontâneas escritas por estes em algum momento de suas vidas e não, necessariamente, nos últimos minutos ou dias que precedem seu gesto. A idéia é que as mensagens escritas constituem-se, por si mesmas, claras expressões de suas vontades em se comunicarem juntamente com as linguagens corporal e espacial. O conjunto de ações da pessoa são mensagens objetivas visando perpetuá-la nos seus semelhantes através das emoções. O suicídio é um gesto de comunicação que transcende o conteúdo dos bilhetes:


Sexo, Idade : F, 20 
Cor : Parda 
Meio: Tiro na cabeça 
Forma de mensagem: manuscrito a tinta esferográfica azul 

"São Paulo 18 de julho de l988 
Edu estou deixando esta carta para mostrar a você o que sinto e o que estou sentindo. 
Edu são 2:15 hs da madrugada não consegui dormir um minuto se quer esta tudo doendo dentro de mim só em pensar que ti perdi de verdade. 
Du porque você fingiu, porque você mentiu para mim este tempo todo. Du não estou agüentando mais, está sendo duro resistir esta dor tão grande que estou sentindo dentro de mim e por viver assim preferi morrer. 
Edu quando lembrar-se de mim lembre-se que ti amei e amei de verdade"

Sexo, Idade : F, 22 
Cor : branca 
Meio : precipitação em queda livre 
Forma de mensagem: manuscrito 
Obs: modelo
"Carlos 
Eu precisava tanto falar contigo, pena, você não deixou. Vou morrer te amando. Eu te amo loucamente. Tudo o que fiz de errado, foi uma necessidade de estar com você outra vez. 
Você não quiz me ouvir. Agora será impossível me ouvir outra vez. Eu te amo. Se tomei esta iniciativa foi simplesmente pelo fato de saber que nunca mais o teria de volta. 
Por mim, peça desculpas à minha mãe. Diga a ela que eu a amo muito também porém não encontrei mais nenhuma existência para mim. Eu te amo, tudo o que fiz foi porque o amava demais. Tentei explicar isto à minha mãe: não se preocupe, será impossível te ligar outra vez. 
(assinatura) 
Eu, Márcia, dou meus olhos, meus cabelos e meu sangue a quem 
precisar. 
Juro estar dizendo a verdade, perante todos e a Deus. 
(assinatura) 
Sem ele não viver mais. 
(assinatura)"


Sexo, Idade : F, 27 
Cor : (descendente de orientais) 
Meio : projétil de arma de fogo 
Forma de mensagem : carta manuscrita a tinta azul 

"A quem possa interessar: 
Grande parte do que possuía foi vendida ou doada. O que resta, é minha vontade que seja entregue ao meu amigo João; o qual poderá dar a meus pertences o destino que lhe aprouver. 
Nada deverá ser entregue a qualquer parente meu. 
Quanto aos meus restos mortais, suplico encarecidamente; não o torturem com choros, rezas ou velas. É apenas a minha matéria e imploro que a deixem degradando-se em paz. A putrefação não é degradante. Se a humanidade permitisse que a natureza tomasse o seu curso, seria o renascimento da matéria. 
Eu renasceria no vento que passa a murmurar, nas folhas que farfalham, no solo que abriga e alimenta milhares de seres vivos, na água que corre para o mar nas chuvas que regam os campos, no orvalho que cintila ao luar, nas grandes árvores que abrigam ninhos de passarinhos e que vergam a passagem dos ventos fortes, nos pequenos arbustos que escondem a caça do caçador... 
Céus! Eu me vingaria se apenas uma de minhas partículas participasse do desabrochar de uma flor ou do canto de um pássaro. Romântico? Não! Foi o mundo, minha família, meu educador mas principalmente... foi o seio que aconchegou a criança que vinha lhe contar as suas tristezas, máguas, alegrias, pensamentos, e seus desejos íntimos... suas esperanças. A criança crescida quer voltar para lhe contar seus sofrimentos, desilusões, a morte de suas esperanças... para encontrar novamente o aconchego onde poderá descansar sua cabeça cansada e abatida e onde poderá, enfim, chorar as suas lágrimas que não encontram onde chorar. 
Volto derrotada porque não fui capaz de viver, trabalhar e estudar não foram suficientes para mim. E foi tudo o que me restou. Prefiro morrer do que viver com a morte dentro de mim. 
Perdoem-me ..., ..., ..., "

Sexo, Idade : F, 30 
Cor : parda 
Meio : enforcamento 
Forma da mensagem : manuscrito a tinta esferográfica azul 
Obs: deixou dois filhos
"Adeus para todos vocês 
Angela"



Sexo/Idade : F, 40 
Cor : branca 
Meio : vários tiros no marido e um na própria cabeça 
Forma da mensagem: manuscrito a tinta esferográfica
"Matei porque não agüentava mais. Estou cansada e não vou deixar ele para ninguém não será meu más também não será de Claudete. 
Carlos o documento está assinado na frasquera é só você passa o carro para o seu nome 
té Adeus. 

Maria

Amo vocés 
mas estou morrendo aos pouco desde o dia que encontrei aquela mulher com ele no carro."


Sexo/Idade : F, 60 
Cor : branca 
Meio : ingestão de inseticida e gás liquefeito de petróleo 
Forma da mensagem : bilhete manuscrito com esferográfica azul
"Sofro demais, não aguento. Querida Joana não entre só: não choquem Antônio e Maria"


Sexo/Idade : F, 64 
Cor : branca 
Meio : tiro 
Forma da mensagem : manuscrito a tinta esferográfica azul 
Obs: pessoa de posses, estrangeira
"Eu, Josefa, peço desculpas devido as minhas depressões nervosas pelo meu ato, tomado por mim mesma. 
Peço às autoridades de não divulgar meu caso, que é uma decisão minha para meu descanso eterno, é meu desejo. Deus abençoe esta terra maravilhosa que é o Brasil. ‘Amem’ "


Sexo/Idade : M, l5 
Cor : (descendente de orientais) 
Meio: tiro 
Forma da mensagem : bilhete feito com tinta "guache" vermelha 
Obs : suas vestes se compunham de uma jaqueta azul com as mangas cortadas, camiseta fantasia, rasgada na parte inferior, calça rasgada na altura dos joelhos, cuecas de malha e, com adornos, uma corrente com cadeado no pescoço, uma medalha e um parafuso na lapela. Os pés calçavam botinas. "Punk"
" "Mãe - eu não quero ser mais uma ovelha desse sistema (me faça um favor de me enterrar como estou) "


Sexo/Idade : M, 20 
Cor : (traços orientais) 
Meio : ingestão de formicida 
Forma da mensagem : manuscrito a tinta esferográfica
"São Paulo, 3 de janeiro de l988

Marisa

As palavras são as mesmas os motivos são os mesmos. Se lembra quando você me disse que eu sabia que você não gostava de mim e eu disse que não tinha certeza. Agora você diz que não sofre, mas eu sinto isto. E vou confiar no meu palpite. Não quero que sofra mais. Não sou um vencedor como você disse, pois minha única vitória é sua felicidade. 
Faço isso pensando em mim, pois assim finalmente descanso. 
Faço isso pensando nos outros, pois assim paro de perturbar os outros. 
Assim creio agradar gregos e troianos. 
Te amo muito. Cuide-se. Seja feliz. 
(assinatura)

Favor avisar as seguintes pessoas: 
a) .............. Fone ........... 
b) .............. Fone ........... 
c) .............. Fone ........... 
d) .............. Fone ...........


Sexo/Idade : M, 22 
Cor : branca 
Meio : ingestão de veneno 
Forma da mensagem : escrito
"Essa atitude foi muito bem analisada e achei que a hora era essa. Não chorem por mim... 
Deus é grandioso; eu espero poder ajoelhar-me em seus pés no dia do juízo final, pois sei que só assim serei perdoado e reintegrado com os meus. 
Eu estou feliz, não chorem. 
Tudo será mais belo. 
Meus dias neste planeta chegaram ao fim. Estou contente. 
Mãe eu te amo 
Eu amo todos vocês 
Não chorem 
(assinatura) " 
------------------------------ 
"Rosemir você deve telefonar 
............... Fone ......... 
(vizinha) Fone ......... 
............... Fone ......... 
Obrigado 
(assinatura) 
Eu possuo estes bens: 
Cadern. Poupança n. ........... dia (3) 
saldo ........ 
Cadern. Poupança n. ........... dia (l4) 
saldo ........ 
Cadern. Poupança n. ........... dia (3) 
saldo ........ 
O cheque n. ....... deve ser usado para cobrir parte das despesas, sendo que o restante deve sair das cadernetas de poupança 
(assinatura)" 
------------------------------ 
"Veneno 
Cuidado" 
------------------------------ 
"Música de Bach (Tocata e Fuga em R maior) 
esta é a música do Chevrolet (opala)"



Sexo/Idade : M, 27 
Cor : branca 
Meio :precipitação em queda livre 
Forma da mensagem: manuscrito com tinta esferográfica azul na contracapa do livro "Sentinelas da Alma" da autoria de Francisco Cândido Xavier 

"Querida Carla 
Estou certo que encontrei em você um mundo cheio de luz e fraternidade humana. Sou como você mesmo disse, um espírito em evolução necessitando de tudo isso. Ao seu lado, estou certo que caminharei paralelamente à vida, a alegria que transbordou tanto em você. 
Um grande beijo. 
(assinatura)" 



Sexo/Idade : M, 28 
Cor : branca 
Meio : tiro no ouvido 
Forma da mensagem: manuscrito a tinta esferográfica azul 

"Sei que quando você ler este bilhete achará loucura o que está acontecendo, mas tudo é a síntese de uma árdua e solitária era para o ser humano. 
Tentei transmitir amor, paz, compreensão, amizade, para um mundo que já se esqueceu de tudo isso. Sei que todos acharão covardia minha ter procurado a morte, porém não acho que desapareci e sim tento passar para um outro plano, talvez um lugar em que eu me encontre e não me sinta tão deslocado. 
Não estou louco e sim decepcionado com a vida e outras pessoas. Quero que todos saibam que ninguém é culpado de ter tomador esta decisão fiz com consciência nas conseqüências. 
A você José um forte abraço e obrigado por ser uma pessoa incrível. Logo todos se esquecerão de mim, portanto, não quero velório, flores, choro, mas sim uma cremação pura e simples e que minhas cinzas sejam jogadas em alto mar, pois não quero deixar marcas em um mundo que nunca me notou. Chega de palavras, pois estas também irão se perder com o tempo. 

Adeus 

(assinatura)
P.S. desculpe os erros de português. 
Deixo para minha filha todos os meus pertences para que ela tenha sempre lembrança do pai que sempre a amou e que mesmo longe materialmente estará sempre ao seu lado espiritualmente 
Cuidado, a arma é automática e pode disparar sem mais ou menos. 
(assinatura)



Sexo/Idade : M, 33 
Cor : parda 
Meio : facada no peito (ferimento perfuro-inciso) e, em seguida, enforcou-se 
Forma da mensagem : manuscrito a tinta esferográfica 
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"Isto é para Rodrigo todas as minhas ferramentas." 
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"Creusa isto é para você e o meu amor primo." (frente da folha) 
"Creuza você foi a mulher que me fez perder a minha família. Você não me deu o que eu quiz então eu lhe dou a minha vida. 
Assinado: o dia D. vida D. amor D. passeio D. fim." (verso da folha) 
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"Esta faca em meu corpo é para ser entregue a Doralice para cortar esta língua felina que também destruiu o meu casamento Amém 
(assinatura) (manuscrito colado na faca) 
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"Para Giane Deus te abençoe Es a minha bênção feliz praia pelo resto de tua vida Amém. 
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"Isto é para João 
(assinatura)" (manuscrito preso a uma tv) 
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"Testamento: Minha mãe, você fez de tudo e conseguiu. Maria me de estudo para Rodrigo e tenha a tutela dele 
(assinatura) 
A minha parte na casa é de Rodrigo e uso e frutos de Creuza, Giane e Wanderlei portanto não deve ser vendida até os 21 anos de Rodrigo. Creuza o que eu mais queria na minha vida era filhos e você me tirou este prazer de um homem. Então para que ser homem Amém 
(assinatura)" 
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"Favor entregar, na garagem onde trabalhava, para os porteiros 
(assinatura)" 
(manuscrito sobre uma capa plástica amarela disposta em cima do fogão e sob uma fita cassete) 
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"Creuza tenho fé em Deus que volto para te buscar? 
Você e os filhos Amém minhas férias para que nenhum filho da puta tire barato deles Amém."


Sexo/Idade : M, 35 
Cor : branca 
Meio : ingestão de veneno 
Forma da mensagem : 
Obs : veterinário
"Sei que estou tendo uma atitude um tanto egoísta depois de tanto me ajudarem o único que não consegue se ajudar sou eu, sempre levei uma vida desarranjada sem zelo e amor por aquilo que fazia, chegou um momento que não consigo tocar mais a vida passei a ser um dependente e isso agora me incomoda, me perdoem vocês foram tão bons para comigo em especial o Alberto, Worer (?) e Lui que me falaram tantas palavras de carinho. No momento me sinto incapaz de conseguir desempenhar qualquer coisa só me passa pela cabeça esta idéia de morte fixa coisa que na clínica se tornou mais sólida. Deus aprendi que ele existe, sei que segundo a crença a gente sofre por aquilo que fez de errado vou pagar por isto. Nunca soube me dar e receber afetividade sou um tapado não consigo aprender fácil as coisas."



Sexo/Idade : M, 53 
Cor : branca 
Meio : ingestão de formicida 
Forma da mensagem : manuscrito a tinta azul 
Obs : suicídio em um hotel de baixa condição financeira
"Por favôr 
Avissem o Deputado Dr. Raul. 
Ele tomará as providências para avisar em São João da Boa Vista. 
Assim, não ficarão esperando que eu apareça por lá, um dia qualquer. 
Obrigado e 
desculpem os transtornos. 
(assinatura)"


Sexo/Idade : M, 56 
Cor : branca 
Meio : disparo de arma de fogo 
Forma da mensagem : datilografada 
Obs: carcereiro
"Dr. ou Dra. 
1- Eu era alcoólatra 
2- Fui internado três vezes 
3- Estou em tratamento no serviço de Psiquiatria há sete anos. 
4- Porem fazem cinco anos que eu parei de beber, não bebo bebida alcoólica nenhuma, mas nem cerveja. 
5- Eu vinha bem durante esse tempo (os cinco anos) estava tomando o haldol e o fenergan. 
6- Mas o ano passado (agosto ou setembro) tive uma pequena recaída, andava um pouco nervoso, dormindo pouco e tremia um pouco as mãos. 
7- A médica trocou os remédios o haldol e o fenergan para o neozine de 100, mas o neozine de 100 me dá um pouco de sono há mais. 
8- Agora eu tive esta recaída, mas não foi por causa da bebida, porque realmente fazem cinco anos que eu não bebo nada mesmo."

Obs: Este texto foi extraído de:
SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO
Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP



Hoje, definitivamente, cansei da vida.
Eu tentei mudar meus pensamentos, eu realmente tentei mas a felicidade não é uma dádiva concedida a todos nem a alegria uma conquista geral.
Meus amigos sempre se afastam, incrivelmente isso acontece quando eu mais preciso deles e isso acontece sempre ao mesmo tempo.
Talvez seja pelas minhas queixas da vida. As pessoas não gostam de andar com queixosos, mesmo q estes estejam certos em sempre se queixar. Ou talvez eu seja uma pessoa enfadonha e apática, eu me acho enfadonho a maior parte do tempo.
Bem, hoje o que eu vim fazer aqui foi me despedir da vida.Viver não está sendo bom para mim. Peço desculpas a todos a quem eu magoei no passado e a todos que eu magoarei com este ato.
Não citarei nomes para não ser injusto, mas tentarei resolver algumas questões e no dia e hora já marcados por mim eu me despedirei da vida com belos cortes nos braços e uma gravata de cordas no pescoço ( uma medida dupla para que não haja falhas)
Adeus a todos a quem amo e nas mãos de Deus entrego a minha vida.

http://cartassuicidio.blogspot.com/2008/09/modelo-prtico-de-cartas-de-suicdas.html

MODELO PRÁTICO DE CARTAS DE SUICÍDAS CONVERTIDOS
por Sérgio Roberto de Oliveira
[ sroks1973@yahoo.com.br ]

Eu não tenho menor idéia sobre o suicídio. O que passa pela minha cabeça é o óbvio. Apenas descrição chorosa e dramática dos jornais. O fato em si, a do suicídio, não deveria ter esclarecimento qualquer. Já me parece ser devidamente explicado: Lá se vai mais um covarde! Talvez pior: quando se tenta explicar o suicida como alguém cheio de problemas. Não tenho problemas e não sou um covarde, bando de sensacionalistas! O motivo pode ser mais nobre do que o meio, incrédulos. Basta um pouco de boa vontade e de compaixão. Como eu disse, daqui a pouco não precisaremos mais de explicação para qualquer suicídio.

O que peço é apenas um pouco de piedade. Melhor, não quero condolência; parece-me algo muito vil de alguém que mal conheço para uma atitude tão nobre. Quero o sossego do final de tarde, nesse meu rumo ao eterno. Leiam, portanto, essa minha carta, desprendendo-se de qualquer sentimento, pois eu não o mereço. Leiam sem critérios literários, ou gramáticos. Leiam como se não fosse obra literária, com miudezas articulosas e sábias. Leiam como qualquer outra carta comum e mesquinha, de parente ou de um desconhecido, deixado debaixo da porta numa manhã chuvosa e fria (não está assim o dia).

Vi na oportunidade de escrever a carta um motivo sublime. Eu que passaria despercebido por todos os conhecidos, e desconhecidos também, compreendi que falar sobre certos acontecimentos da vida (ou da morte) seria uma ação parecida como uma última apresentação de uma peça teatral, onde atores, atrizes e povo estariam todos unidos por uma única razão: presenciar o fim.

Muitos falam sobre fim. Às vezes acabar é bom, noutras não. O final é sempre um ato grandioso. Derradeiro, último; desfecho. A vida vai acabar, mas diferente de um fato que conclui uma situação imaginária, como no teatro; a vida real irá acabar sem palmas e sem veredicto (Aqui o único caso de um desenvolvimento mais importante que o final). Final de um discurso que pode ser dramático, cômico ou enjoativo. A vida que imita a arte poderá se transformar numa encenação sem atores.

Por esse motivo que meu suicídio recomeça sempre, como em personagens que deixam uma queixa qualquer nos leitores, uma cor que se repete no quadro, uma nota destoada na música; um grito desafinado na ópera. A minha carta de suicídio, de modelo prestes a ser prático, fica apenas no esquecimento de um ensaio teórico.


Carta de um suicida
* Postado originalmente em 13/09/2005


O que dizer a vocês amigos?

Sinto-me perdido e covarde, talvez pela concepção geral de que isso é uma fuga, um não querer enfrentar os fatos e dar a volta por cima. Não concordo muito com essa concepção, o que dizer dos etíopes? São covardes, burros e preguiçosos por morrerem de aids e inanição? Será que do mesmo jeito que se alimenta o corpo com proteínas, vitaminas sais e água também não devemos alimentar a mente pra que não morramos por dentro e apenas completemos o processo com o corpo?

É, eu morri por dentro. Por favor, não se sintam culpados, não havia nada que vocês poderiam ter feito pra me ajudar, e talvez até tentassem se eu desabafasse com alguém minha intenção de fazer o que devo ter feito já que estão lendo minha despedida.

Várias coisas me mataram aos poucos por dentro, consumiram minha vontade de tentar. As coisas muitas vezes dão errado e aquela história de que “Deus sabe o que faz” ajuda por um tempo, engana um pouco a gente e faz com que tenhamos a esperança que um dia as coisas vão mudar de figura, que vai pra frente, mas às vezes não vai, essa desculpa ficou tão vazia pra mim quanto o conceito de Deus, ou ele está em algum universo paralelo ou está muito alto lá em cima que meus soluços e gritos por clemência não conseguiram acordá-lo.

Por dentro jaz o que outrora foi um sonhador, visionário, otimista e desafiador. Simplesmente acomodei-me com a dor, lutar só a aumentava, parar de me debater poupou o mínimo para que eu tivesse uns poucos momentos de satisfação na minha vertiginosa queda rumo ao abismo que me encontro. Meu rosto sem expressão, essa melancolia estampada em meu ser de forma residente é o fedor que ultrapassa a barreira metafísica e se manifesta no físico. Já não consigo dormir, pensar, sonhar, amar. Estou morto! E sou ateu o suficiente pra reconhecer que a fábula da ressurreição de Lázaro é apenas um conto literário como qualquer outro, como a minha vida que não passou de uma piada de mau gosto.

Não culpo ninguém e culpo tudo e a todos. Foi o momento, a situação, as mazelas absorvidas ao longo de anos de humilhação, lutas, esforços, todos em vão.

Não quero que lembrem de mim como um covarde, quero que lembrem de mim como alguém que teve coragem suficiente para assumir um fato já consumado e torná-lo finalmente físico. Alguém que resolveu dar um salto em meio a toda amargura e desespero, que abriu os braços e pulou daquela cachoeira, fugindo dos zumbis que o circundavam, que também estavam mortos, sendo que ao contrário de mim, eles mentiam pra si mesmos sobre isso.


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