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24 de fev de 2011

Herberto Helder Lisboa, Assírio & Alvim, 1995,Esta mão que escreve/DEA



Herberto Helder
Lisboa, Assírio & Alvim, 1995
Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Tédio FLORBELA ESPANCA.... /DEA



SEM MEDO A HAROLDO DE CAMPOS/DEA


A HAROLDO
DE CAMPOS


na
sobrancelha
.............um poeta
.............astronauta

.............varre
.............a
.............poeira

.............livros
.............a
.............secar

.............no
.............varal d’alma

em campos gregos
ceifa
sem medo

esculpe
signos
com
seus dedos

sozinho
lúcido
lutador
sereno


defronte
à vida

os ossos
...........devoram
...........a
...........noite


o tremor
da carne
na
-caixa de Pandora-
outro poeta


ressurge
louco
translúcido


cabelos
..........secos


boca
sem
dentes
ventre
crescente


procura
......os versos
perdidos
honesto
naquela noite
.....antiga

................nua


a caixa
............se abre
............no vazio
............um universo
............se faz
......................carne

na carne podre
...........carcomida
.....................treme
.....................um poema
.....................inconcluso


.....................espera
.....................paciente
.....................a sua hora

o poeta
..........seco
..... .....balança
...........ao vento

e nos olhos
............tinha

..................apenas
.........................um cisco

Abilio Terra Junior

ANA MAFALDA LEITE - 9 HAIKUS SOBRE A FLOR DA CEREJEIRA/dea

O desejo que em viço
os abriu

ainda os não beijou
Que estação os espera

agora que o verão em seu leve vento
os sela em rubor e silêncio?
cerejas
frutos vermelhos

provam os lábios

a doce doçura!
cereja
uma boca
a deseja
Meu coração espraia-se
com as ondas
perdido de si

Achei uma concha na areia em forma de coração
quem o perdeu foste tu

ou eu?
Eu que o achei
faço dele uma prenda

para que o meu agarre
e o teu acenda...
Afinal foram dois
um veio após o outro

quem sabe
se com saudade?
Cereja ou coração?

desejo e sabor

água na boca
em qualquer estação