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18 de jun de 2010

As janelas douradas :DÉA

As janelas douradas

Delicadeza

Deves tratar as pessoas com delicadeza, de contrário elas afastar-se-ão de ti.
Lembra-te sempre: um pequeno gesto afectuoso pode ter um grande significado.


As janelas douradas
O menino trabalhava arduamente durante todo o dia, no campo, no estábulo e no armazém, pois os pais eram fazendeiros pobres e não podiam pagar a um ajudante. Mas, quando o sol se punha, o pai deixava-lhe aquela hora só para ele. O menino subia ao alto de um morro e ficava a olhar para um outro morro, distante alguns quilómetros. Nesse morro, via uma casa com janelas de ouro e de diamantes. As janelas brilhavam e reluziam tanto que ele era obrigado a piscar os olhos. Mas, pouco depois, ao que parecia, as pessoas da casa fechavam as janelas por fora, e então a casa ficava igual a qualquer outra casa. O menino achava que faziam isso por ser hora de jantar; então voltava para casa, jantava e ia deitar-se. Um dia, o pai do menino chamou-o e disse-lhe:
— Tens sido um bom menino e ganhaste um dia livre. Tira esse dia para ti; mas lembra-te: tenta usá-lo para aprenderes alguma coisa boa.
O menino agradeceu ao pai e beijou a mãe. Em seguida partiu, tomando a direcção da casa das janelas douradas.
Foi uma caminhada agradável. Os pés descalços deixavam marcas na poeira branca e, quando olhava para trás, parecia que as pegadas o seguiam, fazendo-lhe companhia. A sombra também caminhava ao seu lado, dançando e correndo, tal como ele. Era muito divertido.
Passado um longo tempo, chegou ao morro verde e alto. Quando subiu ao topo, lá estava a casa. Mas parecia que haviam fechado as janelas, pois ele não viu nada de dourado. Aproximou-se e sentiu vontade de chorar, porque as janelas eram de vidro comum, iguais a qualquer outra, sem nada que fizesse lembrar o ouro.
Uma mulher chegou à porta e olhou carinhosamente para o menino, perguntando o que ele queria.
— Eu vi as janelas de ouro lá do nosso morro — disse ele — e vim de propósito para as ver de perto, mas elas são de vidro!
A mulher meneou a cabeça e riu-se.
— Nós somos fazendeiros pobres — disse — e não poderíamos ter janelas de ouro. E o vidro é muito melhor para se ver através dele!
Convidou o menino a sentar-se no largo degrau de pedra e trouxe-lhe um copo de leite e uma fatia de bolo, dizendo-lhe que descansasse. Chamou então a filha, que era da idade do menino; dirigiu aos dois um aceno afectuoso de cabeça e voltou aos seus afazeres.
A menina estava descalça como ele e usava um vestido de algodão castanho, mas os cabelos eram dourados como as janelas que ele tinha visto e os olhos eram azuis como o céu ao meio-dia. Passeou com ele pela fazenda e mostrou-lhe o seu bezerro preto com uma estrela branca na testa; ele falou do bezerro que tinha em casa, e que era castanho-avermelhado com as quatro patas brancas. Depois de terem comido juntos uma maçã, e se terem tornado amigos, ele fez-lhe perguntas sobre as janelas douradas. A menina confirmou, dizendo que sabia tudo sobre elas, mas que ele se tinha enganado na casa.
— Vieste numa direcção completamente errada! — exclamou ela. — Vem comigo, vou-te mostrar a casa de janelas douradas, para ficares a saber onde fica.
Foram para um outeiro que se erguia atrás da casa, e, no caminho, a menina contou que as janelas de ouro só podiam ser vistas a uma certa hora, perto do pôr-do-sol.
— Eu sei, é isso mesmo! — confirmou o menino.
No cimo do outeiro, a menina virou-se e apontou: lá longe, num morro distante, havia uma casa com janelas de ouro e de diamantes, exactamente como ele tinha visto. E quando olhou, o menino viu que era a sua própria casa!
Apressou-se então a dizer à menina que precisava de se ir embora. Deu-lhe a sua melhor pedrinha, a branca com uma lista vermelha, que trazia há um ano no bolso. Ela deu-lhe três castanhas- da-índia: uma vermelha acetinada, outra pintada e outra branca como leite. Ele deu-lhe um beijo e prometeu voltar, mas não contou o que descobrira. Desceu o morro, enquanto a menina ficava a vê-lo afastar-se, na luz do sol poente.
O caminho de volta era longo e já estava escuro quando chegou a casa dos pais. Mas o lampião e a lareira luziam através das janelas, tornando-as quase tão brilhantes como as vira do outeiro. Quando abriu a porta, a mãe veio beijá-lo e a irmãzinha correu a pendurar-se-lhe ao pescoço; sentado perto da lareira, o pai levantou os olhos e sorriu.
— Tiveste um bom dia? — perguntou a mãe.
— Sim! — o menino passara um dia óptimo.
— E aprendeste alguma coisa? — perguntou o pai.
— Sim! — disse o menino. — Aprendi que a nossa casa tem janelas de ouro e de diamantes.
William J. Bennett
O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996

CARTA DE UMA MÃE SEI QUE ESTE É UM POST ENORME MAS VALERA A PENA PERDERMOS UNS SEGUNDOS PARA LERMOS E REFLETIR NA HISTORIA:DÉA

Cartas de uma mãe – Catherine Dunne

Catherine Dunne
Cartas de uma mãe
Lisboa, Editorial Presença
Um intenso conflito familiar, dominado pelos inevitáveis jogos de poder que tantas vezes condicionam as relações afectivas mais profundas.
Alice e Beth, mãe e filha, protagonizam uma ligação ensombrada pelo silêncio ruidoso e agreste que há muito se instalou entre alas, e que ambas desejam, intimamente quebrar. Cabe a Alice, condenada por uma série de acidentes vasculares cerebrais e ciente de poder perder a qualquer momento a lucidez, de dar o primeiro passo. Quando o agravamento da doença deixa Alice em come, Beth retorna à casa materna para se reconciliar com o seu passado, com a mãe, consigo própria.

Cartas de uma mãe

Excerto
Beth espreitava pela janela do quarto, cheia de ansiedade. Laura estava atrasada. Insistira que apanharia um táxi no aeroporto, mas agora Beth estava preocupada. Não devia ter dado ouvidos à filha, devia ter ido buscá-la. Olhou para o relógio. Nove e vinte. A missa fúnebre era daí a quarenta minutos.
Ela e James tinham passado a maior parte da noite acordados, dormindo apenas um pouco entre as seis e as oito. Tinham trocado recordações de bicicletas e baloiços, de gelados e copos de limonada com gasosa. Lembrado as suas tarefas a descascar ervilhas e a colher framboesas na agradável sombra do jardim murado. Tinham também partilhado algumas das várias Alices que cada um conhecera: a dona de casa eficiente, de olhar sempre atento a tarefas inacabadas e língua afiada quando as encontrava; a mãe trabalhadora, que corria de um emprego para o outro, mas insistia em ver todos os trabalhos de casa deles, todos os dias; a mãe orgulhosa, para quem nada era mais importante do que boas notas na escola. E, depois, a avó babada, cega aos defeitos dos netos. Uma geração parecia ter bastado para suavizar a exigência de Alice, para limar as arestas das suas palavras. E tinham rido muito, com grande surpresa de Beth. Nunca pensara que um dia de funeral pudesse ser altura para risos. A conversa encorajara-os, preparara-os para enfrentarem o troço final, que Beth agora receava. Precisava de ter Laura ao seu lado na missa, queria toda a família à sua volta, até mesmo Olive. Aquele era um dia de união, não de divisões.
Chovia, naturalmente. A carrinha fúnebre devia vir buscá-los daí a um quarto de hora. Onde estava Laura? Beth preparava-se para telefonar para o aeroporto quando um táxi irrompeu pelo portão e travou: ruidosamente no caminho de gravilha. Finalmente!
Precipitou-se para a porta da frente, pronta a abraçar a filha. Ficou surpreendida ao ver dois vultos no alpendre. Abriu a porta, intrigada, sem saber o que pensar.
Laura lá estava, lavada em lágrimas mal viu a mãe. E ao seu lado, envolvendo os ombros da filha com um braço protector, estava Tony.
— Espero que não fosse preciso convite! — disse ele.
*
Beth fechou a porta do quarto atrás de si. Olhou para a rua iluminada por trás dos muros baixos do jardim da frente. Chovera todo o dia, implacavelmente. Mas, de certo modo, ela preferia assim: havia algo de insensível na ideia de o sol brilhar no dia do funeral de Alice. Correu os cortinados, tapando a claridade do candeeiro de rua que confortara tantas longas noites dos Invernos da sua infância.
Sentia fortemente a presença de Alice à sua volta. Não acreditava em fantasmas, o que sentia naquele quarto não era uma qualquer arrepiante inquietação do espírito, mas sim o calor luminoso do afecto e da aceitação. Afinal, fora ali que a mãe escrevera as suas cartas, ali que Alice tacteara em busca de algo para além dos anos de amargura e desconfiança. Beth sentou-se à mesma escrivaninha, querendo concluir a conversa que as cartas da mãe tinham começado. Lembrou-se de quando, em criança, atirava seixos para o laguinho do jardim das traseiras e ficava a ver como os círculos se iam alargando na superfície da água, até chegarem às bordas. Sempre gostara de visualizar o mesmo processo ao contrário: imaginava os círculos a ficarem cada vez mais pequenos, até alcançarem a imobilidade no centro da perturbação. Sentia que ela e Alice tinham acabado de ultrapassar os círculos exteriores com êxito. Agora, queria aproximar-se do centro, concluir o que quer que fosse que continuava a puxar por ela, a reclamar a sua atenção. Partiria em breve, muito em breve, e certas coisas não podiam esperar, coisas a que queria dedicar-se sozinha.
Mandara Laura sair com Gemma, aliviada por ver que os rostos muito pálidos e abatidos se tinham distendido logo após o fim das formalidades fúnebres. Tinham começado as duas a rir de tudo e de nada, provocando o riso uma na outra, reagindo à sua maneira à terrível pressão dos últimos dias. James e Tony tinham compreendido rapidamente o estado de espírito de Beth e saído juntos para uma cerveja. Beth ficara por sua conta.
Pôs-se em pé, afastou-se da escrivaninha e abriu as portas do guarda-fatos, tentando ver tudo como Alice devia ter visto. Era como se a sua percepção se tivesse alterado, como se estivesse a ver pelos olhos de outra pessoa. Na prateleira de cima, do lado direito, repousavam meia dúzia de álbuns de fotografias antiquados. Pegou num deles e percorreu-o rapidamente com a vista. Rostos, nomes, lugares que nada significavam para ela, até que, de repente, deparou com uma mulher jovem que só podia ser Alice. Observou a fotografia mais de perto. Um grupo de raparigas, todas enluvadas e de chapéu na cabeça, sorria-lhe de 1945. Levaria aqueles álbuns consigo, se James não se importasse. Gostaria de localizar Arthur Boyd e tinha um forte pressentimento de que seria ali que poderia encontrá-lo. E queria dedicar-se a tudo isso com vagar.
Depois, havia o famoso cesto de costura, sozinho na prateleira de baixo. Beth ajoelhou-se e abriu-o. A tampa de verga envernizada rangeu, como sempre fizera. Muito bem arrumados em pequenos compartimentos viam-se botões de camisa, fechos, colchetes antiquados, alfinetes de segurança. Beth sorriu: Alice guardava sempre tudo, até os pequenos alfinetes de segurança que prendiam os rótulos da lavandaria. Por baixo do primeiro tabuleiro encontravam-se pedaços de pano grosso, giz de alfaiate, uma fita métrica. Também levaria aquilo. Nunca fora grande coisa com a agulha, nada que se assemelhasse a Alice, mas gostava da sensação de proximidade que aqueles objectos estranhamente íntimos lhe proporcionavam. Embalá-los-ia com as coisas de última hora, na manhã seguinte.
Esticou-se para chegar à prateleira de cima e encontrou os dois molhos de fotografias a que Alice se referira na última carta. E ali, exactamente onde ela dissera, estava a fotografia deles quatro, tirada por um transeunte no Phoenix Park, naquele dia mágico de Maio de 1957. Uma rapariguinha, com os olhos franzidos por causa da luz, sorria para a câmara. James, de oito anos, dava-lhe a mão. Ladeavam-nos os pais, Alice e Jack, com um aspecto estranhamente formal. Jack usava camisa e gravata sob a sua camisola nova e Alice vestia um vestido e casaco — dificilmente o que se podia considerar roupa própria para um piquenique. Beth tinha quase a certeza de se lembrar do vestido que a mãe trazia. Tinha um aspecto estranhamente familiar. Até que percebeu: lembrava-se sim, aquele vestido fora transformado num casaco de Inverno para ela, no ano em que fora para a escola primária. Beth sentiu que a fotografia continha uma censura. Como teriam todos aprendido a ser tão perdulários, no espaço de uma única geração? Sorriu, contra vontade. Até estava a começar a pensar como Alice. Guardou o seu molho de fotografias no cesto de costura. Vê-las-ia mais tarde, em casa, com toda a calma. Já não havia pressa.
Percorreu a prateleira de cima mais uma vez, com a mão em arco, e os seus dedos embateram em qualquer coisa mesmo no fim do movimento, num objecto que fora empurrado para trás, encostado ao fundo do armário. Alice devia ter tido de se empoleirar numa cadeira para fazer aquilo. Beth esticou-se toda, nas pontas dos pés, e conseguiu finalmente agarrar o canto de uma caixa de cartão com a ponta dos dedos. Puxou e a caixa deslizou facilmente para a borda da prateleira.
Era grande e bastante pesada. Pegou nela e transportou-a para a escrivaninha. Fora invadida por uma aguda sensação de nervosismo. Que outras surpresas teria Alice preparado para ela? Quanto auto-conhecimento teria uma filha voluntariosa de adquirir numa única semana? Levantou cautelosamente a tampa. Lá dentro, embrulhado em papel de seda, como Alice tinha prometido, repousava Dolph. Riu alto, aliviada, e afastou as finas camadas de papel, nas quais se viam estranhas marcas pretas. Olhou mais de perto: Alice usara velhos moldes de costureiro para embalar o ursinho. Beth ouvia nitidamente as palavras, em maiúsculas, como Alice as pronunciaria: O QUE NÃO DESPERDIÇARES HOJE, NÃO TE FALTARÁ AMANHÃ. Mas elas tinham desperdiçado, não tinham? Pelo menos treze anos, que só agora tinham começado a recuperar.
Ao lado do ursinho estavam três pequenos estojos de jóias. Beth abriu primeiro o estojo azul-noite. Colado à tampa via-se o nome «Gemma» e sobre o forro de veludo repousavam um medalhão e uma corrente de ouro, perfeitamente polidos. Pô-lo de lado. O estojo seguinte era cor de vinho e a dobradiça lassa não segurava bem a tampa no lugar. Continha um pequeno solitário, com «Laura» escrito em maiúsculas num cartãozinho encaixado na tampa. Beth reconheceu o anel de Margaret. Era a escolha perfeita para Laura, cujas mãos deviam ser tão delicadas como as da bisavó. O último estojo era maior e mais achatado do que os outros. Continha uma pulseira de ouro, delicadamente gravada. Também ali havia um envelope dobrado, com a palavra «James» escrita em grandes letras. Não havia nada para Olive. Beth ficou surpreendida. Não precisava de ler o conteúdo daquele envelope para saber que Alice deixara essa decisão a James. Astuta, a sua velha mãe! Era reconfortante saber que, por muito devastadora que tivesse sido a fase final da sua doença, ela conseguira manter toda a sua lucidez e capacidade de julgamento até ao último minuto. Havia que dar graças por isso. Um tal atar de todas as pontas soltas era justamente o que Beth desejava para si mesma.
O último pacote estava embrulhado em papel pardo. Abriu-o cuidadosamente, cheia de curiosidade. Lá dentro estavam três livros, muito usados. Uma colectânea dos Biggles, pertencente a James (amanhã havia de o arreliar por causa daquelas leituras politicamente incorrectas!), O Burrinho do Cortador de Relva, de Patrícia Lynch, que ela lera e relera na sua infância até quase o saber de cor, e um exemplar muito antigo e muito gasto de O Patinho Feio. Onde teria Alice encontrado aquilo?
Os seus olhos encheram-se de lágrimas ao folhear as páginas tão conhecidas. A capa estava a desfazer-se e, quando virou as últimas folhas, algo deslizou para o tampo da escrivaninha. Outro envelope, com o seu nome escrito em letras finas. O coração bateu-lhe dolorosamente. Pousou o livro em cima da cama e abriu o envelope. Porque estaria ali? Porque não estava junto das outras cartas? Por um instante, Beth encheu-se de maus pressentimentos: e se não passasse de um amontoado de palavras sem nexo? E se Alice tivesse escrito aquilo quando já não estava em si? Retendo o fôlego, desdobrou cuidadosamente as folhas de papel. Foi inundada por uma imensa sensação de alívio ao ver a caligrafia cuidada da mãe. Respirou outra vez. Era uma carta a sério. A data chocou-a: apenas um dia antes do primeiro ataque, que assinalara o princípio daquele fim que a privara de tudo o que tinha importância para ela.
«Woodvale
6 de Setembro de 1999
Minha muito querida Elizabeth,
Acabei de chegar do almoço de domingo em casa de James e Olive. Foi um dia maravilhoso. Eoin e Shea estavam cá de visita, com as suas namoradas, e seguem para o oeste da Irlanda amanhã de manhã. Devo confessar que fiquei muito admirada com eles. Shea tem um sotaque americano muito cerrado. Ao fim de um ano? Será que só eu é que acho isso um disparate pegado? É tão parecido com a mãe… Seja como for, ambos parecem estar a sair-se muito bem, a ganhar «pipas de massa», como Shea diz. Eoin é mais calado e cada vez se parece mais com James. Disse-me: «A bolsa é um jogo de gente nova, avó; a pressão é terrível. Daqui a cinco anos, no máximo, quero ver-me de lá para fora.» As namoradas deles eram razoavelmente simpáticas, mas não as achei nada de especial. Longas cabeleiras louras e unhas pintadas. E não paravam de fumar! Julgava que os americanos eram demasiado instruídos em termos de saúde para fumar. Além disso, mal comeram e Olive tinha tido um trabalhão com aquele jantar. Talvez se sentissem um pouco deslocadas, já que estávamos lá todos, até o Keith, que conseguiu entrar para o curso que queria, na universidade, e a Gemma, que regressou há dez dias de um emprego de Verão em Londres.
Enquanto lá estava, com eles todos, fiquei impressionada ao ver como os tempos mudaram. Claro que já sabia disso, mas hoje tive a sensação de que aquele almoço podia estar a realizar-se noutro tempo e noutro lugar. Sentia-me muito desligada de todos, como se já não houvesse lugar para mim na minha própria vida. Parece-me que Olive e James conseguem deixar os filhos irem e virem de uma forma que eu jamais fui capaz. Será porque sempre se tiveram um ao outro, ou porque são melhores pais do que eu? Não consigo compreender como me enganei tanto. Passo o tempo a lembrar-me de ti e James na primeira infância, no máximo até aos doze anos. Depois disso, é como se houvesse um grande fosso.
Mal James me trouxe a casa, vim a correr para o teu quarto, porque queria procurar fotografias, diplomas, cartas — qualquer coisa dos tempos em que vocês, e especialmente tu, eram mais velhos. Não tenho nada. No entanto, sei que te saíste bem na escola, que sempre foste boa aluna. Tiveste boas classificações no Ciclo Liceal, e notas ainda melhores no Complementar. Mas não fiquei com nenhuma recordação desses êxitos. Levaste os diplomas contigo?
Hoje, ao ver a Gemma, lembrei-me dolorosamente do teu próprio Verão, no ano em que concluíste a escola. Estavas resolvida a partir, a voar com as tuas próprias asas em Londres. Mas eu vi isso de forma completamente diferente. Fiquei magoada por quereres afastar-te de mim e, diga-se em abono da verdade, com medo de ficar só. James tinha vinte e três anos, nessa altura, estava quase a começar o mestrado e eu tinha muito orgulho nele. Já andava com a Olive e eu sabia que era a sério. Quando acabaste os teus exames, fiquei satisfeitíssima: queria para ti o mesmo que quisera para James. Aprendera à minha custa quão importante é uma pessoa ser capaz de ganhar a sua vida, independentemente de ser homem ou mulher.
Mas, em vez da universidade, vi com horror como querias desaparecer numa grande cidade, com um rapaz que mal conhecias. Nunca me ocorrera que ele pudesse fazer parte de qualquer plano teu. Na minha imaginação, via-te na mesma situação em que já vira tantas outras antes de ti: grávida, o que seria o fim de quaisquer ambições que pudesses ter. Não queria isso para ti; queria que tivesses uma vida melhor, mais fácil e com mais conforto do que a vida de uma mãe solteira.
Porque não consegui dizer-te isso? Será que não falávamos havia tanto tempo que se tornara impossível dizer alguma coisa a que a outra prestasse atenção? Lamento isso, Elizabeth. Nem consigo dizer-te quanto lamento. Tu eras a jovem, eu era a adulta e era a mim que cabia a responsabilidade de proceder melhor. Se o tivesse feito, provavelmente não teríamos perdido quase treze anos. Treze anos! Parece incrível que nos tenhamos castigado uma à outra durante tanto tempo. Sei que vinhas a casa de vez em quando e tínhamos um acordo tácito em não mencionar aquilo que não podia ser mencionado. Essas visitas eram difíceis para ambas, não eram? Mas adaptámo-nos mais ou menos a essa rotina. Ficarei sempre grata a James por ter sido quem manteve um verdadeiro contacto contigo. Disse-lhe isso, nas minhas cartas. Ele fez com que viesses a todos os baptizados, em 76, 80 e 82, e eu sei que ele e Olive têm imensas fotografias dos seus bebés com a tia babada. Hoje pedi-lhas e ele prometeu trazer-mas no fim-de-semana. Tenho muita vontade de as ver, para preencher algumas dessas lacunas por mim mesma. Sinto uma grande tristeza por todo esse desperdício e só posso culpar-me a mim própria por isso.
O verdadeiro raio de sol chegou em 85, quando casaste com o Tony e tiveste a Laura, nesse mesmo ano. Gostei muito do Tony, achava que ele era bom para ti. Aliás, continuo a pensar o mesmo. E o teu casamento foi encantador, tão íntimo, só connosco, os dez. Lembras-te de quando me telefonaste a dizer que estavas grávida? Fiquei felicíssima — e comecei a sentir que afinal ainda tínhamos tempo, que o teu bebé nos aproximaria de novo. E aproximou, não foi? Tinha tanto gosto nas tuas visitas! A Laura era uma rapariguinha tão encantadora, fazia-me lembrar tanto de quando tu eras pequena! Senti que tínhamos finalmente uma verdadeira ligação e queria tratar esse laço com muito cuidado, não fazer nada que pudesse enfraquecê-lo. O Natal e o Verão passaram a ser épocas que eu esperava com prazer e sentia que podia mostrar-te, através da Laura, o quanto sempre te amara. Ao longo dos anos, fui tendo a sensação de que já não precisávamos de falar sobre aquilo que nos afastara. Só agora, pressentindo que talvez nunca mais te veja, sou obrigada a reconhecer quão enganada estava.
Sei que, quando leres estas cartas, é muito pouco provável que eu ainda consiga falar contigo. Talvez nem sequer te reconheça. Mas isso agora já não tem tanta importância, porque sinto que estás a ouvir-me, sinto que me perdoarás.
Com muito amor da tua mãe,
Alice».
Beth dobrou as folhas e repô-las no envelope. Meteu a carta entre as últimas páginas do Patinho Feio e enfiou o livro debaixo da almofada. Pegou nas caixas de jóias e no livro de James e levou-os para baixo, para a sala. Deixou-os na prateleira ao lado da lareira, onde tinha a certeza de que ele os encontraria. Falaria com ele de manhã.
De momento, tinha a sensação de estar a nadar em câmara lenta, deslocando-se com dificuldade por águas pesadas. A última carta de Alice deixara-a demasiado calma, quase vazia de emoções. Sabia que os círculos da sua tempestuosa relação se tinham afastado e aproximado de novo, que ela e Alice estavam agora no centro das coisas, tal como o seixo no centro do lago do jardim murado do pai. Em breve regressaria à sua outra vida, e teria tempo para estar sossegada, em silêncio, tempo para procurar e descobrir a filha e a mãe em que estava a tornar-se.

A MENINA E O PASSARO:DÉA


A menina e o pássaro encantado – Ruben Alves

A menina e o pássaro encantado
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
 Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
 Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
 Tenho de ir  dizia.
 Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
 Eu também terei saudades  dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
 Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
 Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
 Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
 Que bom  pensava ela  o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
 Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003