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17 de out de 2009

SOBRE BEM-TE-VIS E MORTE


Morre-se aos poucos,
diariamente,
como cotovias,
pardais,
sanhaços-papa-laranjas
Bem-te-vis,numa árvore distante,
saíras-sapucaia
e sabiás-laranjeira.
As células não se entreolham mais que sete dias.
Vai ver que é a cor vermelha!
Os terminais nervosos,
num outro patamar,
praticam a tolerância
por toda vida,
Embora,
precocemente,
já lá pelos três anos,
muitos desses "nervosos",
dos que já se foram,
por não aguentarem tanta burrice,
ou não terem para onde ir,
simplesmente,
fenesceram.
Isso,
sem falar nos "óvulos",
certamente companheiros/cømpanheiras insólitos/insólitas,
deveras grotescos/grotescas,
que assim como vêm,
vão,
ao sabor das ondas insulares e astrais.
Até os Deuses morrem.
Morre o telefone,
no seu pedestal admirável.
E nenhuma mensagem,
vivifica,
por maior que seja o desejo.
A tarde morre,
e com ela,
todos os desgarrados.
A noite morre,
e com ela,
todos os desvalidos.
A manhã morre,
e com ela,
todos os cegos.
A primavera morre,
e com ela,
todos os coxos.
O outono morre,
e com ele,
todos surdos e todos os tortos.
O inverno morre,
e com ele,
todos os pederastas e todas as lésbicas.
O verão morre,
e com ele,
todas as putas,
protitutas,
galinhas e piranhas morrem.
Todos os gagos,
morrem,
em qualquer dia da semana.
A nuvem branquinha,
esfumaçante,
morre.
A tormenta,
demora,
mas morre.
A pedra morre e não chora,
pelo que dizem.
A pedra dos estudiosos,
dizem,
não morre.
Será que uma pedra não morre?
Uma folha amarelada,
numa calçada de Mannhatan,
morre.
O amor pode morrer?
Pode paixão sossobrar,
num instante?
antimônio,
morre?
Existiu alguém,
na Terra,
que não morreu?
"Nada resiste e perdura".
As montanhas vão e vêm.
"És un hombre muerto".
Até os velórios, morrem,
assim como todos os que acompanham o féretro,
a festa,
a pouca vergonha,
e toda a canalhice intitucionalizada e dantesca.
Até o leitor de notícias de enterro,
no jornal de todas as manhãs,
morre:
Deve ser por isso que acompanha os diários de morte,
numa marcação homem a homem,
para não perder nenhum lance e nenhuma jogada.
Todos e tudo,
morre!
O pensamento morre,
A civilização morre,
assim como a beleza mais resplandecente.
A juventude,
morre,
acaba,
não sobrevive,
embora todos os gastos,
custos,
embromações,
esconderijos,
disfarçes,
choros,
luzes,
sombras,
e todas as estultices da idade.
Os velhos,
morrem.
Uns velhos,
aos poucos,
preparando seus parentes,
para o derradeiro fim,
prolongando doenças sem fim.
Um velho acompanhado,
morre.
Uma velha abandonada,
morre.
Um pobre,
morre,
assim como seu " nobre colega",
rico,
que não "morre",
mas "deixa" o mundo e seus entes queridos.
Um louco morre,
Eletrocutado,
no poste mais próximo.
Também morre,
no edifício mais alto,
na ponte mais próxima,
No corredor mais escuro,
na dobrada a esquina da zona norte.
Morre,
também,
a criança mais inocente,
o psicótico,
o depressivo,
o medroso,
o corajoso,
o bandido,
o mocinho,
o cão mais bonitinho e inteligente,
todos morrem.
A morte é a maior pergunta da vida e sua razão de ser.
A maior iniciação.
O próprio umbral.
A tumba mais seleta.
O túnel mais moderno.
A cor mais refinada.
O som mais afinado.
A guitarra definitiva.
O alvorecer mais preguiçoso,
visto que,
nada melhor que acordar,
num outro mundo.
A mansão mais elegante,
entre tantas,
onde, o que chamamos de morte,
não passa de um leve sussurrar do vento,
e um murmúrio de cachoeira,
ao longe.
Uns, diriam, luminárias celestes,
outros, a própria eternidade.

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