Suzana Motta |
25 de fev. de 2011
CHORO DE MENINA Suzana Motta /DEA
Corações Solitários Amy* /dea
Amy*
Somos dois corações solitários
Em busca das emoções perdidas
Mas nunca esquecidas
Quando nos encontramos
resgatamos nossos sonhos mais antigos
Voltamos a ser adolescentes inconseqüentes
O desejo a flor da pele
A sensação maravilhosa
De ter de novo o coração batendo forte
Aquele desejo insano de ficar juntinhos
Aquela vontade louca do "quero, não quero"
A respiração ofegante
A umidade que pouco a pouco invade nosso corpo
As pernas tremendo
A respiração quase parando
A vontade de dois, se tornarem um
Mas chega a hora do adeus...até amanhã...
E nossos corações solitários
Já não estarão tão sós
Teremos um ao outro
Nem que seja em pensamento
Até o próximo encontro.
24 de fev. de 2011
Herberto Helder Lisboa, Assírio & Alvim, 1995,Esta mão que escreve/DEA
| Herberto Helder Lisboa, Assírio & Alvim, 1995 |
| Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça, que à imagem do mundo aberta de têmpora a têmpora ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a sua queimadura desde os seus recessos negros onde se formam as estações até ao cimo, nas sedas que se escoam com a largura fluvial da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas e o silêncio todo branco. Os dedos. A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua alumia-se: O mel escurece dentro da veia jugular talhando a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas obscuras, essa lua tece as ramas de um sangue mais salgado e profundo. E o marfim amadurece na terra como uma constelação. O dia leva-o, a noite traz para junto da cabeça: essa raiz de osso vivo. A idade que escrevo escreve-se num braço fincado em ti, uma veia dentro da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta da figura cavada no espelho. Ou ainda a fenda na fronte por onde começa a estrela animal. Queima-te a espaçosa desarrumação das imagens. E trabalha em ti o suspiro do sangue curvo, um alimento violento cheio da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força desde a raiz dos braços a força manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda fechada, a límpida ferida que me atravessa desde essa tua leveza sombria como uma dança até ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum astro é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros do teu vestido. As palavras que escrevo correndo entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso, arterial. E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado. A paixão é voraz, o silêncio alimenta-se fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo. Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem nos quartos. É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas, entre as mãos sumptuosas. A doçura mata. A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas. |
Tédio FLORBELA ESPANCA.... /DEA
SEM MEDO A HAROLDO DE CAMPOS/DEA
A HAROLDO na .............varre .............livros em campos gregos esculpe sozinho
os ossos
o poeta Abilio Terra Junior |
ANA MAFALDA LEITE - 9 HAIKUS SOBRE A FLOR DA CEREJEIRA/dea
| O desejo que em viço os abriu ainda os não beijou | Que estação os espera agora que o verão em seu leve vento os sela em rubor e silêncio? |
| cerejas frutos vermelhos provam os lábios a doce doçura! | cereja uma boca a deseja |
| Meu coração espraia-se com as ondas perdido de si | Achei uma concha na areia em forma de coração quem o perdeu foste tu ou eu? |
| Eu que o achei faço dele uma prenda para que o meu agarre e o teu acenda... | Afinal foram dois um veio após o outro quem sabe se com saudade? |
| Cereja ou coração? desejo e sabor água na boca em qualquer estação | |
22 de fev. de 2011
CANÇÃO Eugênio de Andrade /DEA
Eugênio de Andrade
Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da nadrugada.
Tu eras água.
Água do mar se te beijava
Alta tôrre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.
Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.
Mas do nome
que maio decorou,
nem a côr
nem o gôsto me ficou.
EEN LIED VOOR MARGARETHA David Mourão Ferreira/DEA

David Mourão Ferreira
Tu vens de terras de Holanda,
mas tens a carne morena,
E em vez da serena, branda
postura que o Norte manda,
teu corpo se desordena
à carícia, por mais branda...
Tu vens das terras de Holanda...
Eu venho de Portugal:
o mesmo é dizer que venho
de longe, do litoral,
e um sabor, no corpo, a sal
definiu meu Fado estranho.
Aqui me tens, donde venho:
eu venho de Portugal...
Trago nos lábios o Mar,
cheio de vento e de espuma...
E tu mo virás roubar!
- Ai descampados ao ar,
onde houvera ventos, bruma! -
Com saudade hei de lembrar:
tinha nos lábios o Mar...
Hei de lembrar e sofrer
o que fôr perdendo aqui...
Mas um colo de mulher
tudo merece, e requer
o abandono de si...
Quem me dera que por ti
venha a lembrar e sofrer...
Tu vens de terras de Holanda,
eu venho de Portugal:
cada um de sua banda...
Sabe o Destino o que manda,
quer p'ra bem ou quer p'ra mal...
- Não mais as terras de Holanda
e areias de Portugal!
ROTEIRO João Rui de Sousa /DEA
João Rui de Sousa
Meu jeito visionário - meu astrolábio.
Meu ser mirabolante - um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que - abismos -
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor.
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
POEMA PARA A NOITE Maria Teresa Horta/DEA
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Maria Teresa Horta
Beijo
o à vontade das mãos
na imagem dos homens
O oceano
por entre o oceano
a paz estagnada
no contôrno dos espelhos
Beijo-te
na terra à secreção
dos passos
ódios redondos
acuado de seios
a noite na espessura
quente
das almofadas sem manhã
a imortalidade
abortada
que mulheres conduzem
prêsas
pelo ventre e saciadas
de filhos
Beijo
o absoluto contido
nos objetos sem casta
a incerteza branca
das paredes
imóveis
a insalubridade arqueada
no silêncio espêsso
das portas sem casas
com jardins malogrados
no início do nada
como se depois das vertentes
árvores fôssem
chuva
ou nuvens fôssem árvores
Beijo-vos
a todos por de dentro
dos lábios
as línguas da areia
nas bôcas das praias
golfos quadrados
de alvorarem
barcos
barcos erectos
agressivos de mastros
A cidade é nossa
Beijo-te
na cidade
nas ruas onde carros
são flores
que crescem em ruídos
de palmas
Beijo-te
na sêde aguda
que gaivotas têm de céu
e de estátuas
estátuas anemia
de cabelos
em patamares de doença
missivas acres
de grades aciduladas
a água é no princípio
das palavras
veia fechada
saliente nas rochas
água vertebrada
com pulmões escondidos
Beijo-te
na água de caules
sucessivos
O grito é um navio
perdido
na memória
Beijo-te
no vidro
searas verdadeiras
de cristal p'lo
ódio
a batalha é o azul
que deixamos atrás
Beijo
a súbita vontade
da vigília dos partos
os suicídios moles
com precipícios vastos
as pedras castradas
nas retinas dos
gatos
horizonte
na distância onde o crime
acontece nas lâminas
Fatos inconcretos
na geometria
do mêdo
as viúvas são laranjas
vestidas
de encarnado
Beijo-te
esquecida na vertigem
das algas
o vento é oblíquo
nas âncoras antecipadas
as lágrimas
são incógnitas
na orgânica dos sons
Introdução às pétalas
na urgência da glória
abelhas saqueadas
na saliva ruiva
em poentes sem vértice
a boiarem na pele rugosamente
opaca
da lua
A nossa vontade
é nos ombros das plantas
orvalho de febre sem objetivo
Beijo-vos
no bosque onde o animal
é a penumbra
e os joelhos da luz
cogumelos de asfalto
no centro de um inverno
sem notícia nem espanto
Beijo-vos
prolongada de gerações
em silêncio
é para nós agora
a vez
das planícies que erguemos
pelas ancas
na curva onde o hálito
é ansiedade no homem
são para nós
as notícias de mortes
necessárias
na simetria do espaço
Beijo-vos
nos pulsos de naufrágio
circulares
a onda é um motivo
assimétrico de revolta
Fronteiras mutiladas
cedo
rente aos cais
Beijo-vos
na vontade de recomeçarmos
os olhos
os cavalos
são paisagens
e o neon é um cavalo
de mergulharmos os dedos
Beijo-vos
a todos nos meus lábios
onde antiguidade de manhã
é gaiola insubmersa
de nunca existirem passos
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