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19 de jun. de 2010

O reino do coração:DÉA


O reino do coração
Conta-nos uma lenda, que existia em um reino muito distante, uma grande quantidade de terras que se perdiam no horizonte e iam muito além das montanhas. 

Chamava-se "o reino do coração". Uma jovem senhora recebera de Deus a incumbência de cuidar e administrar, como quisesse, toda aquela imensidão de terras. 

Para se ter uma idéia, ela possuía mais terras do que o próprio rei. 

A jovem senhora sempre soube administrar com maestria todos os setores do reino do coração que lhe pertenciam. 

Era uma mulher bondosa e, mesmo contra a vontade de muita gente, ela sempre distribuía alguns hectares de sua propriedade para as pessoas simples que batiam à sua porta. 

As pessoas pediam para ficar um tempo e acabavam se demorando, se demorando até se instalarem de vez. 

Tudo corria maravilhosamente bem até que chegou um posseiro e quis morar nas terras do coração que ela mais gostava: "as terras da afetividade". 

Aproveitando-se da ausência da senhora, que viajara por algum tempo, esse posseiro se apoderou do seu recanto mais precioso, onde ela cultivava as flores da paixão, da cumplicidade, do companheirismo e de muitas outras flores relacionadas ao sentimento. 

Quando ela retornou, ficou bastante surpresa ao ver que aquele forasteiro havia se instalado ali. 

No entanto, ele não era um forasteiro qualquer, era como um raio de sol, e ao seu suave toque todas as flores se abriam e começavam a exalar um perfume inebriante. 

Com a presença daquele homem incomum, o recanto secreto da jovem senhora se tornou o mais belo de todo o reino. 

A administradora não teve como recusar a permanência daquele posseiro singular, pois sua presença havia mudado para sempre os jardins dos seus mais secretos sentimentos... 

No entanto, um dia... um dia que a jovem senhora não mais poderia esquecer, seu jardim amanheceu sem brilho e sem perfume... 

Parecia que o inverno chegara mais cedo..., e um frio extemporâneo havia crestado todas flores... 

A dona das terras quis saber o motivo e seu pequeno-grande coração quase desfaleceu ao saber que seu raio de sol havia partido... 

Ela saiu a buscar por todos os cantos do seu reino, mas não mais o encontrou. 

A tristeza quis tomar posse do seu recanto precioso, mas ela insistia em ter de volta o toque suave do seu raio de sol, único capaz de trazer novamente o viço e o perfume às flores. 

No entanto, numa manhã... numa manhã que a jovem senhora não mais poderá esquecer, seu raio de sol voltou... mas não voltou para ficar... 

Ele propôs uma condição: poderia apenas visitar aquele recanto de paz e amor a cada início de primavera, para beijar todas as flores pelas quais nutria imenso carinho. 

Apesar de sentir-se triste por não ter seu raio de sol em todas as estações, a jovem senhora aceitou as condições. 

E é assim que a cada início de primavera o raio de sol beija as flores e elas se abrem, e exalam seu inebriante perfume como todas as flores cultivadas pelo amor de alguém muito especial. 

*** 

Se você também cultiva as flores da paixão e não tem um raio de sol para beijá-las todas as manhãs, cultive as flores da afetividade, da amizade, da fraternidade... 

E, se neste dia, dedicado aos namorados, você não tem ninguém para compartilhar seus sonhos, seus desejos, seus anseios, abra as portas do reino do coração e libere as terras onde possa brotar a esperança. 

Cultive a esperança de um dia encontrar, como a jovem senhora da lenda, um raio de sol que possa aquecer para sempre o seu recanto de amor.
 

Autor:
Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita.

A libertação da borboleta:DÉA


A libertação da borboleta
A doutora Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra de origem suíça, especializou-se em doentes terminais. 

Assistindo centenas de crianças que estavam morrendo, ela nos diz que devemos aprender a ouvir. 

Ouvir o que a criança expressa verbalmente. E mesmo aquilo que ela transmite pela linguagem não verbal. 

Crianças terminais, conta ela, sabem quando vão morrer. E precisam de algum atendimento especial. Atendimento que só o amor incondicional pode dar. 

Falando de sua experiência, narra que conheceu um menino que aos nove anos se encontrava à beira da morte. 

Portador de câncer, desde os 3 anos de idade, Jeffy nem conseguia mais olhar para as agulhas de injeção. 

Tudo era doloroso para ele. No hospital, esperava a morte. O médico sugeriu que se iniciasse uma nova quimioterapia. 

Mas o menino pediu: "quero ir para casa, hoje." 

Os pais optaram por lhe satisfazer a vontade. 

Quando Jeffy chegou em casa, pediu ao pai que descesse da parede da garagem a sua bicicleta. 

Durante muito tempo, seu sonho tinha sido andar de bicicleta. O pai a comprou, mas por causa da doença ele nunca pode andar. 

A dificuldade era imensa, até mesmo para se manter em pé, então Jeffy pedalou a bicicleta com o amparo das rodinhas auxiliares. 

Disse que iria dar uma volta no quarteirão e que ninguém o segurasse. Ele desejava fazer aquilo sozinho. 

A médica que o acompanhava, a mãe e o pai ficaram ali, um segurando o outro. A vontade era de segui-lo. 

Ele era uma criança muito vulnerável. Poderia cair, se machucar, sangrar. 

Ele se foi. Uma eternidade depois, ele voltou, o homem mais orgulhoso que se possa ter visto um dia. 

Sorria de orelha a orelha. Parecia ter ganho a medalha de ouro nas olimpíadas. 

Sereno, pediu ao pai que retirasse as rodinhas auxiliares e levasse a bicicleta para seu quarto. E quando seu irmão chegasse, era para ele subir para falar com ele. 

Queria falar com o irmão a sós. Tudo aconteceu como ele pediu. 

Ao descer, o irmão recusou-se a dizer aos pais o que haviam conversado. 

Uma semana depois, Jeffy morreu. E, na semana seguinte, era o aniversário do irmão. Foi aí que o menino contou o que tinha acontecido naquele dia. 

Jeffy dissera a ele que queria ter o prazer de lhe dar pessoalmente sua amada bicicleta. 

Mas não podia esperar mais duas semanas, até o aniversário dele, porque então já teria morrido. 

Por isso, a dava agora. Entretanto, havia uma condição: que ele nunca usasse aquelas rodinhas auxiliares, próprias para crianças bem pequenas. 

Quando os pais souberam de tudo, sentiram muita tristeza. Uma tristeza sem medo, sem culpa, sem lamentar. 

Eles tinham a agradável lembrança do filho dando a sua volta de bicicleta pelo quarteirão. 

E mais do que isso: o sorriso feliz no rosto de Jeffy, que foi capaz de conseguir sua grande vitória em algo que a maioria encara como comum. 

*** 

Dizemos que uma pessoa é como o casulo de uma borboleta. O casulo é o que ela vê no espelho. É apenas uma morada temporária do ser imortal. 

Quando esse casulo fica muito danificado, o ser o abandona. 

É como a borboleta que se liberta do casulo. 

Deixar o ser amado partir sereno, só é possível aos corações que amam de forma incondicional e verdadeira.
 

Autor:
Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no cap. O casulo e a borboleta (Jeffy), do livro O túnel e a luz, de Elisabeth Kübler-Ross, ed. Verus.
Som de Fundo:
"Evening Falls"

Jesus, modelo e guia :DÉA



Jesus, modelo e guia
Referência, todos precisamos de referências para saber como agir. 

Desde criança nossas ações são influenciadas profundamente pelos referenciais que temos mais próximos de nossas vidas. 

Entendemos hoje que a família é o primeiro modelo de comportamento que o infante tem à sua disposição, e que será de suprema importância em seu desenvolvimento. 

Foi assim que, entendendo esta característica humana milenar, Allan Kardec, iniciando a exposição das Leis Morais em sua obra-prima, O livro dos espíritos, inquiriu à Espiritualidade: 

"Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?" 

Há sabedoria na pergunta kardequiana, que inicialmente vê como indispensável termos referencial, e depois na solicitação de "um tipo mais perfeito". 

Sim, precisamos ter um Guia e Modelo acima de todos os outros. Um inquestionável, que apresente todas as características de perfeição possíveis. 

A resposta dos Espíritos é muito clara e objetiva: 

"Jesus". 

Logo em seguida, o professor lionês faz um comentário esclarecedor: 

"Para o homem, Jesus constitui o tipo de perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. 

Deus no-Lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor(...)" 

Aí está Kardec ressaltando uma vez mais a idéia de Modelo e Guia proposta por ele mesmo no questionamento inicial. 

Faz-se mister que diferenciemos, didaticamente, estas duas características desse Mestre maior, para que nos aprofundemos mais nas reflexões. 

O que podemos entender por "modelo"? 

Modelo seria uma forma típica para se reproduzir ou imitar. 

Para os pintores, escultores, o modelo é a figura a ser copiada, ou a referência única de inspiração para se compor uma obra. 

No mundo da moda, os modelos são padrões de beleza ditados por esta ou aquela corrente, neste ou naquele momento da história. 

Entender Jesus como modelo, é perceber em Seus atos, em Suas atitudes, na maneira como procedeu nesta ou naquela situação, uma referência atemporal a ser imitada. 

Quando o Mestre proclama, heróico: "Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei comigo que sou manso e humilde de coração", Ele nos diz: 

"Percebam Minha mansidão ao enfrentar as adversidades da vida. Mirem-se na Minha humildade, virtude que já tenho conquistada, para que vocês construam a sua." 

Em outra feita, quando nos momentos finais de sua vida na Terra, pede ao Pai Maior que compreenda os que O estavam assassinando, Ele exemplifica o perdão incondicional. 

Nas entrelinhas poderíamos ler: "Inspirem-se no Meu exemplo. Estou compreendendo, perdoando aqueles que Me matam. Façam o mesmo." 

O que podemos entender como "guia"? 

Guia é aquele que aponta o caminho, que conduz, que aconselha. 

E o Cristo sempre foi o Guia por excelência, mostrando-nos todos os caminhos seguros, alertando-nos sobre as trilhas incertas e perigosas. 

Jesus estava sendo Guia quando disse: "Aquele que quiser ser o maior dentre vós, seja o servo de todos." 

Ele apontava assim o caminho da grandeza de Espírito, a grandeza de quem serve. 

Ao recitar as bem-aventuranças, Ele deixava claro quais as conseqüências de quem tomasse o caminho da misericórdia, do pacifismo, da pureza de coração... 

Finalmente, coroando Sua missão como Guia e Modelo, deixa-nos Seu maior ensinamento: "Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei." 

Como Guia lúcido, indica o caminho seguro do amor. 

Como Modelo irretocável, sugere-nos que nos inspiremos em Sua forma de amar, na maneira sublime com que amou a Humanidade inteira.
 

Autor:
Redação do Momento Espírita com base no item 625, de O livro dos espíritos, de Allan Kardec, ed. Feb.
Som de Fundo:
"A Media Luz"
Referência, todos precisamos de referências para saber como agir. 

Desde criança nossas ações são influenciadas profundamente pelos referenciais que temos mais próximos de nossas vidas. 

Entendemos hoje que a família é o primeiro modelo de comportamento que o infante tem à sua disposição, e que será de suprema importância em seu desenvolvimento. 

Foi assim que, entendendo esta característica humana milenar, Allan Kardec, iniciando a exposição das Leis Morais em sua obra-prima, O livro dos espíritos, inquiriu à Espiritualidade: 

"Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?" 

Há sabedoria na pergunta kardequiana, que inicialmente vê como indispensável termos referencial, e depois na solicitação de "um tipo mais perfeito". 

Sim, precisamos ter um Guia e Modelo acima de todos os outros. Um inquestionável, que apresente todas as características de perfeição possíveis. 

A resposta dos Espíritos é muito clara e objetiva: 

"Jesus". 

Logo em seguida, o professor lionês faz um comentário esclarecedor: 

"Para o homem, Jesus constitui o tipo de perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. 

Deus no-Lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor(...)" 

Aí está Kardec ressaltando uma vez mais a idéia de Modelo e Guia proposta por ele mesmo no questionamento inicial. 

Faz-se mister que diferenciemos, didaticamente, estas duas características desse Mestre maior, para que nos aprofundemos mais nas reflexões. 

O que podemos entender por "modelo"? 

Modelo seria uma forma típica para se reproduzir ou imitar. 

Para os pintores, escultores, o modelo é a figura a ser copiada, ou a referência única de inspiração para se compor uma obra. 

No mundo da moda, os modelos são padrões de beleza ditados por esta ou aquela corrente, neste ou naquele momento da história. 

Entender Jesus como modelo, é perceber em Seus atos, em Suas atitudes, na maneira como procedeu nesta ou naquela situação, uma referência atemporal a ser imitada. 

Quando o Mestre proclama, heróico: "Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei comigo que sou manso e humilde de coração", Ele nos diz: 

"Percebam Minha mansidão ao enfrentar as adversidades da vida. Mirem-se na Minha humildade, virtude que já tenho conquistada, para que vocês construam a sua." 

Em outra feita, quando nos momentos finais de sua vida na Terra, pede ao Pai Maior que compreenda os que O estavam assassinando, Ele exemplifica o perdão incondicional. 

Nas entrelinhas poderíamos ler: "Inspirem-se no Meu exemplo. Estou compreendendo, perdoando aqueles que Me matam. Façam o mesmo." 

O que podemos entender como "guia"? 

Guia é aquele que aponta o caminho, que conduz, que aconselha. 

E o Cristo sempre foi o Guia por excelência, mostrando-nos todos os caminhos seguros, alertando-nos sobre as trilhas incertas e perigosas. 

Jesus estava sendo Guia quando disse: "Aquele que quiser ser o maior dentre vós, seja o servo de todos." 

Ele apontava assim o caminho da grandeza de Espírito, a grandeza de quem serve. 

Ao recitar as bem-aventuranças, Ele deixava claro quais as conseqüências de quem tomasse o caminho da misericórdia, do pacifismo, da pureza de coração... 

Finalmente, coroando Sua missão como Guia e Modelo, deixa-nos Seu maior ensinamento: "Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei." 

Como Guia lúcido, indica o caminho seguro do amor. 

Como Modelo irretocável, sugere-nos que nos inspiremos em Sua forma de amar, na maneira sublime com que amou a Humanidade inteira.
 

Autor:
Redação do Momento Espírita com base no item 625, de O livro dos espíritos, de Allan Kardec, ed. Feb.
Som de Fundo:
"A Media Luz"

Reflexão: A amizade, o sucesso e a inveja… :DÉA

Nesta vida nada vem de mão beijada mesmo, este é o maior exemplo que a vida me deu, por isso trabalhei duro até hoje e não tive medo de arriscar, ao contrário das pessoas que se acomodam e ficam sentadas esperando alguém trazer a solução para suas vidas pacatas e tediosas, para em seguida, tentar tirar benefício disso para sí tentando fazer igual.
Nesta longa estrada da vida – como dizia a música de João Mineiro e Marciano – muitos tombos e dificuldades vêm e vão e sempre virão e irão. O importante é continuar firme, com inteligência e determinação.
Aprender a lição de nunca confiar nos outros é o mais importante. Não sou crente, mas acho que alguns trechos da Bíblia até que merecem seus créditos, como este:
sucesso Reflexão: A amizade, o sucesso e a inveja...
Penso que um projeto de vida profissional ou pessoal só pode ir para a frente se levado muito à sério e jamais a vida pessoal deve ser misturada com a vida profissional. São coisas distintas, principalmente quando o negócio é seu mesmo. Afinal, se você trabalha para uma empresa, você certamente terá que aturar pessoas que não o agrada. Se você por ventura sair desta empresa, e tiver boa índole, jamais sacaneará as pessoas que lá estão envolvidas ou estragará um projeto só por que você não teve capacidade e competência de fazer parte dele.
Digo tudo isso por que algumas pessoas que se dizem blogueiros costumam ficar fazendo denúncias infâmes e desnecessárias só para prejudicar os colegas de profissão, e também por pessoas que se aproximam para pegarconhecimento, se fazendo por amigos e, após ganhar confiança, tentam te derrubar de alguma forma.
O Blog Tira-Tédio passou por isso, este post é mais para mostrar à essas pessoas que ele vai continuar firme e forte independente da inveja, das tentativas de invasão ou qualquer coisa que possam tentar fazer contra ele. Mudanças podem ser feitas para melhorias, mas jamais aceitarei que pessoas medíocres que só pensam em sí mesmas me apavorem com tais atitudes, pelo contrário, isso só me dá mais força para continuar mais e mais!
Aos contraventores: Aposto que teria tentado coisas piores se eu não tivesse me precavido. Isso só revela o quanto as pessoas podem ficar perturbadas por causa de decepções na vida, mas as decepções não acontecem por acaso, nós somos responsáveis pelo que colhemos, tenho consciência disso, mas quem não tiver, com certeza vai ficar sempre na mesma, perambulando, procurando por algo que não existe até que se definhe ou caia na real.
Não é por causa de uns e outros que colocam preço tão baixo na amizade que vou deixar de acreditar na mesma. Ainda acredito, e sei que amigos de verdade sempre aparecerão na hora que mais precisar, como tem acontecido.
A vida é um mestre. E feliz é o discípulo mais dedicado às suas regras…
inveja Reflexão: A amizade, o sucesso e a inveja...
A inveja pode até fazer mal para quem é invejado, mas tenho vivenciado exemplos suficientes para acreditar que o mais prejudicado é o invejoso, que se prejudica por si só. É como um feitiço que sempre se vira contra o feiticeiro.
Ás vezes é difícil acreditar no amor ou na amizade, pois por muito pouco as pessoas destróem aquilo que tanto se dizem prezar. Casais se separam por muito pouco e amigos se viram as caras por causa de um tanto de “nada”.
Muitas pessoas costumam referenciar a “força” de uma amizade pelo tempo que ela permanece, mas é uma medida errônea e impensada, pois amizades de anos podem acabar em segundos por valores muito pequenos que são colocados acima da amizade propriamente dita. Deixo meu conselho e acreditem… a amizade não precisa de tempo como marcador, mas de admiração, honestidade e disposição à ajudar quando necessário. Estes são os valores reais que acho que deveriam medir a amizade.
correnteamizade Reflexão: A amizade, o sucesso e a inveja...
Apesar de tudo o que ocorre nos bastidores do blog… é com muita satisfação que aviso aos estimados leitores do Blog Tira-Tédio que nós sempre Continuaremos firmes e fortes no intuito de trazer informação e diversão à todos os nossos leitores.
P.S.: As tentativas de prejudicar as fotos do blog foram falhas e o trabalho foi rapida e prontamente resolvido graças à uma tecnologia chamada “Backup de amigos”! Que venha o próximo desafio! Estamos prontos e sempre estaremos!! Os desafios só nos fazem crescer!!!
P.S2.: “De mão beijada” é a oportunidade bater na sua porta e você não saber reconhecer…
valordaamizade Reflexão: A amizade, o sucesso e a inveja...

BOM FIM DE SEMANA! :DÉA

BOM FIM DE SEMANA!
"Eu guardei muitas coisas em
Minhas mãos,e perdi todas..
Mas todas que coloquei nas 
mãos de Deus, essas eu 
ainda possuo"

▂ஜ Sei Que Deus Existe ஜ▂ 

A morte de Saramago, morre hj um dos nossos melhores escritor :DÉA

José de Sousa Saramago, falecido hoje aos 87 anos, nasceu na aldeia de Azinhaga, concelho da Golegã, a 16 de novembro de 1922, embora esteja registado como tendo nascido a 18, mas antes de fazer três anos mudou-se para Lisboa com os pais. 

Foi ao inscrever-se na escola primária, na capital, que se descobriu que o funcionário do registo tinha acrescentado na sua certidão de nascimento a alcunha da família, Saramago, como sendo apelido, o que tornou o escritor no primeiro Saramago da família Meirinho Sousa. 

"Após fazer os estudos secundários em Lisboa, que por dificuldades financeiras não prosseguiu, José Saramago começou a trabalhar como serralheiro mecânico e exerceu ainda as profissões de desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor e tradutor, tendo colaborado também como crítico literário na revista Seara Nova e como comentador político no Diário de Lisboa (1972-73) e sido diretor do Diário de Notícias (1975)." 

Membro da primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e presidente da assembleia geral da Sociedade Portuguesa de Autores entre 1985-1994, José Saramago, viveu, a partir de 1976, exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro enquanto tradutor e depois enquanto autor. 

O seu primeiro livro, o romance "Terra do Pecado", saiu em 1947, tendo José Saramago estado depois sem publicar até 1966, quando regressou com "Os Poemas Possíveis", a que se seguiram, já na década de 70, "Provavelmente Alegria" (1970), "Deste Mundo e do Outro" (1971), "A Bagagem do Viajante" (1973), "O Ano de 1993" (1975), "Manual de Pintura e Caligrafia" (1977), "Objecto Quase" (1978) e "A Noite" (teatro, 1979), entre outros. 

Já nos anos 80 chegaram às livrarias "Levantado do Chão" (1980), "Que farei com este Livro?" (teatro, 1980), "Viagem a Portugal" (1981), "Memorial do Convento" (1982), "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1986), "A Segunda Vida de Francisco de Assis" (1987) e "História do Cerco de Lisboa" (1989). 

O polémico Evangelho

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo", o romance mais polémico do autor, saiu em 1991 e dois anos depois surgia a peça de teatro "In Nomine Dei", após o que tinha início a publicação dos "Cadernos de Lanzarote" (1994, diário I, e 1995, diário II), reflexo da mudança de Saramago para aquela ilha do arquipélago das Canárias. 

O aplaudido "Ensaio sobre a Cegueira" foi dado à estampa em 1995, a ele se seguindo mais dois volumes dos "Cadernos de Lanzarote", em 1996 e 1997, e o novo romance "Todos os Nomes", editado também em 1997, um ano antes do quinto volume dos "Cadernos de Lanzarote". 

Após a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1998, a Fundação Círculo de Leitores instituiu um galardão literário bienal com o nome de José Saramago e a expetativa em torno de um novo trabalho do autor aumentou, até que, no ano 2000, chegou às livrarias "A Caverna", a que se seguiu "O Homem Duplicado" (2002). 

O "Ensaio Sobre a Lucidez", publicado em 2004, foi apresentado pelo próprio escritor em entrevista à Lusa como "uma fábula, uma sátira e uma tragédia" e causou controvérsia por preconizar o recurso ao voto em branco como sinal de desagrado dos eleitores perante o Governo. 

Aquando do lançamento deste título, José Saramago criticou duramente a democracia portuguesa por, na sua opinião, os governos serem "comissários políticos do poder económico"e mostrou-se contra o monopólio dos média. 

No ano seguinte, o escritor publicou a peça de teatro "Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido", escrita como fundamento dramático para o libreto de uma ópera de Azio Corghi, compositor italiano que no final da década de 1980 criara a ópera "Blimunda", inspirada na personagem homónima do romance "O Memorial do Convento", voltando a recorrer aos textos do Nobel da Literatura para outras óperas e para cantatas ao longo dos anos 1990. 

Em 2005, o escritor - que dizia não ser pessimista, "o mundo é que é péssimo" - lançou também um novo romance, "As Intermitências da Morte", que apresentou como "uma reflexão filosófica sobre a vida" e onde coloca questões como: "Quais as implicações de uma vida mais longa? Quanto tempo passaria a durar a velhice? Em que se tornaria o corpo humano?", "Como se pagariam então as reformas, problema que já agora se coloca?".

Traduções e prémios em todo o mundo

A vasta obra do escritor português encontra-se editada em mais de trinta países, entre os quais Dinamarca, Suécia, Finlândia, Hungria, Rússia, Turquia, Albânia, Eslovénia, Sérvia, Roménia, Macedónia, Síria, Israel, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, México, Colômbia, Argentina e EUA. 

As ficções de José Saramago valeram-lhe o Prémio da Associação de Críticos Portugueses (para "A Noite", em 1979), Prémio Cidade de Lisboa (por "Levantado do Chão", de 1980), Prémio Literário Município de Lisboa ("Memorial do Convento", 1982) e o PEN Clube para "Memorial do Convento" (1982) e "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984). 

Este último livro valeu-lhe ainda o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos (1985), o Prémio Dom Diniz (1986), o galardão italiano Grinzane-Cavour (1987) e o Prémio de Ficção Estrangeira do jornal The Independent (1993). 

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 1992, no mesmo ano em que "Levantado do Chão" foi galardoado em Itália com o Prémio Internacional Ennio Flaiano, enquanto "In Nomine Dei" venceu, em 1993, o Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores. 

Pelo conjunto da sua obra, Saramago foi ainda distinguido com o Prémio Internacional Literário Mondello e o Prémio Literário Brancatti (ambos em 1992), Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1993), Prémio Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores e Prémio Camões (os dois em 1995) e Prémio Nacional de Narrativa Città di Penne, Prémio Europeu de Comunicação Jordi Xifra Heras e Prémio Nobel da Literatura (os três em 1998). 

José Saramago acumulou ainda doutoramentos Honoris Causa pelas universidades de Évora (Portugal), Turim (Itália), Sevilha e Castilla-La-Macha (Espanha), Brasília (Brasil) e Manchester (Inglaterra), foi membro Honoris Causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália), membro da Academia Universal das Culturas (Paris) e do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo) e membro correspondente da Academia Argentina das Letras, além de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago de Espada e Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras Francesas. 

Criador de um universo muito próprio, por vezes alojado entre o real e o fantástico, Saramago acreditava, à semelhança de Laurence Sterne, que talvez intercetasse pensamentos que os céus destinavam a outros homens. 
Lusa
(Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

18 de jun. de 2010

As janelas douradas :DÉA

As janelas douradas

Delicadeza

Deves tratar as pessoas com delicadeza, de contrário elas afastar-se-ão de ti.
Lembra-te sempre: um pequeno gesto afectuoso pode ter um grande significado.


As janelas douradas
O menino trabalhava arduamente durante todo o dia, no campo, no estábulo e no armazém, pois os pais eram fazendeiros pobres e não podiam pagar a um ajudante. Mas, quando o sol se punha, o pai deixava-lhe aquela hora só para ele. O menino subia ao alto de um morro e ficava a olhar para um outro morro, distante alguns quilómetros. Nesse morro, via uma casa com janelas de ouro e de diamantes. As janelas brilhavam e reluziam tanto que ele era obrigado a piscar os olhos. Mas, pouco depois, ao que parecia, as pessoas da casa fechavam as janelas por fora, e então a casa ficava igual a qualquer outra casa. O menino achava que faziam isso por ser hora de jantar; então voltava para casa, jantava e ia deitar-se. Um dia, o pai do menino chamou-o e disse-lhe:
— Tens sido um bom menino e ganhaste um dia livre. Tira esse dia para ti; mas lembra-te: tenta usá-lo para aprenderes alguma coisa boa.
O menino agradeceu ao pai e beijou a mãe. Em seguida partiu, tomando a direcção da casa das janelas douradas.
Foi uma caminhada agradável. Os pés descalços deixavam marcas na poeira branca e, quando olhava para trás, parecia que as pegadas o seguiam, fazendo-lhe companhia. A sombra também caminhava ao seu lado, dançando e correndo, tal como ele. Era muito divertido.
Passado um longo tempo, chegou ao morro verde e alto. Quando subiu ao topo, lá estava a casa. Mas parecia que haviam fechado as janelas, pois ele não viu nada de dourado. Aproximou-se e sentiu vontade de chorar, porque as janelas eram de vidro comum, iguais a qualquer outra, sem nada que fizesse lembrar o ouro.
Uma mulher chegou à porta e olhou carinhosamente para o menino, perguntando o que ele queria.
— Eu vi as janelas de ouro lá do nosso morro — disse ele — e vim de propósito para as ver de perto, mas elas são de vidro!
A mulher meneou a cabeça e riu-se.
— Nós somos fazendeiros pobres — disse — e não poderíamos ter janelas de ouro. E o vidro é muito melhor para se ver através dele!
Convidou o menino a sentar-se no largo degrau de pedra e trouxe-lhe um copo de leite e uma fatia de bolo, dizendo-lhe que descansasse. Chamou então a filha, que era da idade do menino; dirigiu aos dois um aceno afectuoso de cabeça e voltou aos seus afazeres.
A menina estava descalça como ele e usava um vestido de algodão castanho, mas os cabelos eram dourados como as janelas que ele tinha visto e os olhos eram azuis como o céu ao meio-dia. Passeou com ele pela fazenda e mostrou-lhe o seu bezerro preto com uma estrela branca na testa; ele falou do bezerro que tinha em casa, e que era castanho-avermelhado com as quatro patas brancas. Depois de terem comido juntos uma maçã, e se terem tornado amigos, ele fez-lhe perguntas sobre as janelas douradas. A menina confirmou, dizendo que sabia tudo sobre elas, mas que ele se tinha enganado na casa.
— Vieste numa direcção completamente errada! — exclamou ela. — Vem comigo, vou-te mostrar a casa de janelas douradas, para ficares a saber onde fica.
Foram para um outeiro que se erguia atrás da casa, e, no caminho, a menina contou que as janelas de ouro só podiam ser vistas a uma certa hora, perto do pôr-do-sol.
— Eu sei, é isso mesmo! — confirmou o menino.
No cimo do outeiro, a menina virou-se e apontou: lá longe, num morro distante, havia uma casa com janelas de ouro e de diamantes, exactamente como ele tinha visto. E quando olhou, o menino viu que era a sua própria casa!
Apressou-se então a dizer à menina que precisava de se ir embora. Deu-lhe a sua melhor pedrinha, a branca com uma lista vermelha, que trazia há um ano no bolso. Ela deu-lhe três castanhas- da-índia: uma vermelha acetinada, outra pintada e outra branca como leite. Ele deu-lhe um beijo e prometeu voltar, mas não contou o que descobrira. Desceu o morro, enquanto a menina ficava a vê-lo afastar-se, na luz do sol poente.
O caminho de volta era longo e já estava escuro quando chegou a casa dos pais. Mas o lampião e a lareira luziam através das janelas, tornando-as quase tão brilhantes como as vira do outeiro. Quando abriu a porta, a mãe veio beijá-lo e a irmãzinha correu a pendurar-se-lhe ao pescoço; sentado perto da lareira, o pai levantou os olhos e sorriu.
— Tiveste um bom dia? — perguntou a mãe.
— Sim! — o menino passara um dia óptimo.
— E aprendeste alguma coisa? — perguntou o pai.
— Sim! — disse o menino. — Aprendi que a nossa casa tem janelas de ouro e de diamantes.
William J. Bennett
O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996

CARTA DE UMA MÃE SEI QUE ESTE É UM POST ENORME MAS VALERA A PENA PERDERMOS UNS SEGUNDOS PARA LERMOS E REFLETIR NA HISTORIA:DÉA

Cartas de uma mãe – Catherine Dunne

Catherine Dunne
Cartas de uma mãe
Lisboa, Editorial Presença
Um intenso conflito familiar, dominado pelos inevitáveis jogos de poder que tantas vezes condicionam as relações afectivas mais profundas.
Alice e Beth, mãe e filha, protagonizam uma ligação ensombrada pelo silêncio ruidoso e agreste que há muito se instalou entre alas, e que ambas desejam, intimamente quebrar. Cabe a Alice, condenada por uma série de acidentes vasculares cerebrais e ciente de poder perder a qualquer momento a lucidez, de dar o primeiro passo. Quando o agravamento da doença deixa Alice em come, Beth retorna à casa materna para se reconciliar com o seu passado, com a mãe, consigo própria.

Cartas de uma mãe

Excerto
Beth espreitava pela janela do quarto, cheia de ansiedade. Laura estava atrasada. Insistira que apanharia um táxi no aeroporto, mas agora Beth estava preocupada. Não devia ter dado ouvidos à filha, devia ter ido buscá-la. Olhou para o relógio. Nove e vinte. A missa fúnebre era daí a quarenta minutos.
Ela e James tinham passado a maior parte da noite acordados, dormindo apenas um pouco entre as seis e as oito. Tinham trocado recordações de bicicletas e baloiços, de gelados e copos de limonada com gasosa. Lembrado as suas tarefas a descascar ervilhas e a colher framboesas na agradável sombra do jardim murado. Tinham também partilhado algumas das várias Alices que cada um conhecera: a dona de casa eficiente, de olhar sempre atento a tarefas inacabadas e língua afiada quando as encontrava; a mãe trabalhadora, que corria de um emprego para o outro, mas insistia em ver todos os trabalhos de casa deles, todos os dias; a mãe orgulhosa, para quem nada era mais importante do que boas notas na escola. E, depois, a avó babada, cega aos defeitos dos netos. Uma geração parecia ter bastado para suavizar a exigência de Alice, para limar as arestas das suas palavras. E tinham rido muito, com grande surpresa de Beth. Nunca pensara que um dia de funeral pudesse ser altura para risos. A conversa encorajara-os, preparara-os para enfrentarem o troço final, que Beth agora receava. Precisava de ter Laura ao seu lado na missa, queria toda a família à sua volta, até mesmo Olive. Aquele era um dia de união, não de divisões.
Chovia, naturalmente. A carrinha fúnebre devia vir buscá-los daí a um quarto de hora. Onde estava Laura? Beth preparava-se para telefonar para o aeroporto quando um táxi irrompeu pelo portão e travou: ruidosamente no caminho de gravilha. Finalmente!
Precipitou-se para a porta da frente, pronta a abraçar a filha. Ficou surpreendida ao ver dois vultos no alpendre. Abriu a porta, intrigada, sem saber o que pensar.
Laura lá estava, lavada em lágrimas mal viu a mãe. E ao seu lado, envolvendo os ombros da filha com um braço protector, estava Tony.
— Espero que não fosse preciso convite! — disse ele.
*
Beth fechou a porta do quarto atrás de si. Olhou para a rua iluminada por trás dos muros baixos do jardim da frente. Chovera todo o dia, implacavelmente. Mas, de certo modo, ela preferia assim: havia algo de insensível na ideia de o sol brilhar no dia do funeral de Alice. Correu os cortinados, tapando a claridade do candeeiro de rua que confortara tantas longas noites dos Invernos da sua infância.
Sentia fortemente a presença de Alice à sua volta. Não acreditava em fantasmas, o que sentia naquele quarto não era uma qualquer arrepiante inquietação do espírito, mas sim o calor luminoso do afecto e da aceitação. Afinal, fora ali que a mãe escrevera as suas cartas, ali que Alice tacteara em busca de algo para além dos anos de amargura e desconfiança. Beth sentou-se à mesma escrivaninha, querendo concluir a conversa que as cartas da mãe tinham começado. Lembrou-se de quando, em criança, atirava seixos para o laguinho do jardim das traseiras e ficava a ver como os círculos se iam alargando na superfície da água, até chegarem às bordas. Sempre gostara de visualizar o mesmo processo ao contrário: imaginava os círculos a ficarem cada vez mais pequenos, até alcançarem a imobilidade no centro da perturbação. Sentia que ela e Alice tinham acabado de ultrapassar os círculos exteriores com êxito. Agora, queria aproximar-se do centro, concluir o que quer que fosse que continuava a puxar por ela, a reclamar a sua atenção. Partiria em breve, muito em breve, e certas coisas não podiam esperar, coisas a que queria dedicar-se sozinha.
Mandara Laura sair com Gemma, aliviada por ver que os rostos muito pálidos e abatidos se tinham distendido logo após o fim das formalidades fúnebres. Tinham começado as duas a rir de tudo e de nada, provocando o riso uma na outra, reagindo à sua maneira à terrível pressão dos últimos dias. James e Tony tinham compreendido rapidamente o estado de espírito de Beth e saído juntos para uma cerveja. Beth ficara por sua conta.
Pôs-se em pé, afastou-se da escrivaninha e abriu as portas do guarda-fatos, tentando ver tudo como Alice devia ter visto. Era como se a sua percepção se tivesse alterado, como se estivesse a ver pelos olhos de outra pessoa. Na prateleira de cima, do lado direito, repousavam meia dúzia de álbuns de fotografias antiquados. Pegou num deles e percorreu-o rapidamente com a vista. Rostos, nomes, lugares que nada significavam para ela, até que, de repente, deparou com uma mulher jovem que só podia ser Alice. Observou a fotografia mais de perto. Um grupo de raparigas, todas enluvadas e de chapéu na cabeça, sorria-lhe de 1945. Levaria aqueles álbuns consigo, se James não se importasse. Gostaria de localizar Arthur Boyd e tinha um forte pressentimento de que seria ali que poderia encontrá-lo. E queria dedicar-se a tudo isso com vagar.
Depois, havia o famoso cesto de costura, sozinho na prateleira de baixo. Beth ajoelhou-se e abriu-o. A tampa de verga envernizada rangeu, como sempre fizera. Muito bem arrumados em pequenos compartimentos viam-se botões de camisa, fechos, colchetes antiquados, alfinetes de segurança. Beth sorriu: Alice guardava sempre tudo, até os pequenos alfinetes de segurança que prendiam os rótulos da lavandaria. Por baixo do primeiro tabuleiro encontravam-se pedaços de pano grosso, giz de alfaiate, uma fita métrica. Também levaria aquilo. Nunca fora grande coisa com a agulha, nada que se assemelhasse a Alice, mas gostava da sensação de proximidade que aqueles objectos estranhamente íntimos lhe proporcionavam. Embalá-los-ia com as coisas de última hora, na manhã seguinte.
Esticou-se para chegar à prateleira de cima e encontrou os dois molhos de fotografias a que Alice se referira na última carta. E ali, exactamente onde ela dissera, estava a fotografia deles quatro, tirada por um transeunte no Phoenix Park, naquele dia mágico de Maio de 1957. Uma rapariguinha, com os olhos franzidos por causa da luz, sorria para a câmara. James, de oito anos, dava-lhe a mão. Ladeavam-nos os pais, Alice e Jack, com um aspecto estranhamente formal. Jack usava camisa e gravata sob a sua camisola nova e Alice vestia um vestido e casaco — dificilmente o que se podia considerar roupa própria para um piquenique. Beth tinha quase a certeza de se lembrar do vestido que a mãe trazia. Tinha um aspecto estranhamente familiar. Até que percebeu: lembrava-se sim, aquele vestido fora transformado num casaco de Inverno para ela, no ano em que fora para a escola primária. Beth sentiu que a fotografia continha uma censura. Como teriam todos aprendido a ser tão perdulários, no espaço de uma única geração? Sorriu, contra vontade. Até estava a começar a pensar como Alice. Guardou o seu molho de fotografias no cesto de costura. Vê-las-ia mais tarde, em casa, com toda a calma. Já não havia pressa.
Percorreu a prateleira de cima mais uma vez, com a mão em arco, e os seus dedos embateram em qualquer coisa mesmo no fim do movimento, num objecto que fora empurrado para trás, encostado ao fundo do armário. Alice devia ter tido de se empoleirar numa cadeira para fazer aquilo. Beth esticou-se toda, nas pontas dos pés, e conseguiu finalmente agarrar o canto de uma caixa de cartão com a ponta dos dedos. Puxou e a caixa deslizou facilmente para a borda da prateleira.
Era grande e bastante pesada. Pegou nela e transportou-a para a escrivaninha. Fora invadida por uma aguda sensação de nervosismo. Que outras surpresas teria Alice preparado para ela? Quanto auto-conhecimento teria uma filha voluntariosa de adquirir numa única semana? Levantou cautelosamente a tampa. Lá dentro, embrulhado em papel de seda, como Alice tinha prometido, repousava Dolph. Riu alto, aliviada, e afastou as finas camadas de papel, nas quais se viam estranhas marcas pretas. Olhou mais de perto: Alice usara velhos moldes de costureiro para embalar o ursinho. Beth ouvia nitidamente as palavras, em maiúsculas, como Alice as pronunciaria: O QUE NÃO DESPERDIÇARES HOJE, NÃO TE FALTARÁ AMANHÃ. Mas elas tinham desperdiçado, não tinham? Pelo menos treze anos, que só agora tinham começado a recuperar.
Ao lado do ursinho estavam três pequenos estojos de jóias. Beth abriu primeiro o estojo azul-noite. Colado à tampa via-se o nome «Gemma» e sobre o forro de veludo repousavam um medalhão e uma corrente de ouro, perfeitamente polidos. Pô-lo de lado. O estojo seguinte era cor de vinho e a dobradiça lassa não segurava bem a tampa no lugar. Continha um pequeno solitário, com «Laura» escrito em maiúsculas num cartãozinho encaixado na tampa. Beth reconheceu o anel de Margaret. Era a escolha perfeita para Laura, cujas mãos deviam ser tão delicadas como as da bisavó. O último estojo era maior e mais achatado do que os outros. Continha uma pulseira de ouro, delicadamente gravada. Também ali havia um envelope dobrado, com a palavra «James» escrita em grandes letras. Não havia nada para Olive. Beth ficou surpreendida. Não precisava de ler o conteúdo daquele envelope para saber que Alice deixara essa decisão a James. Astuta, a sua velha mãe! Era reconfortante saber que, por muito devastadora que tivesse sido a fase final da sua doença, ela conseguira manter toda a sua lucidez e capacidade de julgamento até ao último minuto. Havia que dar graças por isso. Um tal atar de todas as pontas soltas era justamente o que Beth desejava para si mesma.
O último pacote estava embrulhado em papel pardo. Abriu-o cuidadosamente, cheia de curiosidade. Lá dentro estavam três livros, muito usados. Uma colectânea dos Biggles, pertencente a James (amanhã havia de o arreliar por causa daquelas leituras politicamente incorrectas!), O Burrinho do Cortador de Relva, de Patrícia Lynch, que ela lera e relera na sua infância até quase o saber de cor, e um exemplar muito antigo e muito gasto de O Patinho Feio. Onde teria Alice encontrado aquilo?
Os seus olhos encheram-se de lágrimas ao folhear as páginas tão conhecidas. A capa estava a desfazer-se e, quando virou as últimas folhas, algo deslizou para o tampo da escrivaninha. Outro envelope, com o seu nome escrito em letras finas. O coração bateu-lhe dolorosamente. Pousou o livro em cima da cama e abriu o envelope. Porque estaria ali? Porque não estava junto das outras cartas? Por um instante, Beth encheu-se de maus pressentimentos: e se não passasse de um amontoado de palavras sem nexo? E se Alice tivesse escrito aquilo quando já não estava em si? Retendo o fôlego, desdobrou cuidadosamente as folhas de papel. Foi inundada por uma imensa sensação de alívio ao ver a caligrafia cuidada da mãe. Respirou outra vez. Era uma carta a sério. A data chocou-a: apenas um dia antes do primeiro ataque, que assinalara o princípio daquele fim que a privara de tudo o que tinha importância para ela.
«Woodvale
6 de Setembro de 1999
Minha muito querida Elizabeth,
Acabei de chegar do almoço de domingo em casa de James e Olive. Foi um dia maravilhoso. Eoin e Shea estavam cá de visita, com as suas namoradas, e seguem para o oeste da Irlanda amanhã de manhã. Devo confessar que fiquei muito admirada com eles. Shea tem um sotaque americano muito cerrado. Ao fim de um ano? Será que só eu é que acho isso um disparate pegado? É tão parecido com a mãe… Seja como for, ambos parecem estar a sair-se muito bem, a ganhar «pipas de massa», como Shea diz. Eoin é mais calado e cada vez se parece mais com James. Disse-me: «A bolsa é um jogo de gente nova, avó; a pressão é terrível. Daqui a cinco anos, no máximo, quero ver-me de lá para fora.» As namoradas deles eram razoavelmente simpáticas, mas não as achei nada de especial. Longas cabeleiras louras e unhas pintadas. E não paravam de fumar! Julgava que os americanos eram demasiado instruídos em termos de saúde para fumar. Além disso, mal comeram e Olive tinha tido um trabalhão com aquele jantar. Talvez se sentissem um pouco deslocadas, já que estávamos lá todos, até o Keith, que conseguiu entrar para o curso que queria, na universidade, e a Gemma, que regressou há dez dias de um emprego de Verão em Londres.
Enquanto lá estava, com eles todos, fiquei impressionada ao ver como os tempos mudaram. Claro que já sabia disso, mas hoje tive a sensação de que aquele almoço podia estar a realizar-se noutro tempo e noutro lugar. Sentia-me muito desligada de todos, como se já não houvesse lugar para mim na minha própria vida. Parece-me que Olive e James conseguem deixar os filhos irem e virem de uma forma que eu jamais fui capaz. Será porque sempre se tiveram um ao outro, ou porque são melhores pais do que eu? Não consigo compreender como me enganei tanto. Passo o tempo a lembrar-me de ti e James na primeira infância, no máximo até aos doze anos. Depois disso, é como se houvesse um grande fosso.
Mal James me trouxe a casa, vim a correr para o teu quarto, porque queria procurar fotografias, diplomas, cartas — qualquer coisa dos tempos em que vocês, e especialmente tu, eram mais velhos. Não tenho nada. No entanto, sei que te saíste bem na escola, que sempre foste boa aluna. Tiveste boas classificações no Ciclo Liceal, e notas ainda melhores no Complementar. Mas não fiquei com nenhuma recordação desses êxitos. Levaste os diplomas contigo?
Hoje, ao ver a Gemma, lembrei-me dolorosamente do teu próprio Verão, no ano em que concluíste a escola. Estavas resolvida a partir, a voar com as tuas próprias asas em Londres. Mas eu vi isso de forma completamente diferente. Fiquei magoada por quereres afastar-te de mim e, diga-se em abono da verdade, com medo de ficar só. James tinha vinte e três anos, nessa altura, estava quase a começar o mestrado e eu tinha muito orgulho nele. Já andava com a Olive e eu sabia que era a sério. Quando acabaste os teus exames, fiquei satisfeitíssima: queria para ti o mesmo que quisera para James. Aprendera à minha custa quão importante é uma pessoa ser capaz de ganhar a sua vida, independentemente de ser homem ou mulher.
Mas, em vez da universidade, vi com horror como querias desaparecer numa grande cidade, com um rapaz que mal conhecias. Nunca me ocorrera que ele pudesse fazer parte de qualquer plano teu. Na minha imaginação, via-te na mesma situação em que já vira tantas outras antes de ti: grávida, o que seria o fim de quaisquer ambições que pudesses ter. Não queria isso para ti; queria que tivesses uma vida melhor, mais fácil e com mais conforto do que a vida de uma mãe solteira.
Porque não consegui dizer-te isso? Será que não falávamos havia tanto tempo que se tornara impossível dizer alguma coisa a que a outra prestasse atenção? Lamento isso, Elizabeth. Nem consigo dizer-te quanto lamento. Tu eras a jovem, eu era a adulta e era a mim que cabia a responsabilidade de proceder melhor. Se o tivesse feito, provavelmente não teríamos perdido quase treze anos. Treze anos! Parece incrível que nos tenhamos castigado uma à outra durante tanto tempo. Sei que vinhas a casa de vez em quando e tínhamos um acordo tácito em não mencionar aquilo que não podia ser mencionado. Essas visitas eram difíceis para ambas, não eram? Mas adaptámo-nos mais ou menos a essa rotina. Ficarei sempre grata a James por ter sido quem manteve um verdadeiro contacto contigo. Disse-lhe isso, nas minhas cartas. Ele fez com que viesses a todos os baptizados, em 76, 80 e 82, e eu sei que ele e Olive têm imensas fotografias dos seus bebés com a tia babada. Hoje pedi-lhas e ele prometeu trazer-mas no fim-de-semana. Tenho muita vontade de as ver, para preencher algumas dessas lacunas por mim mesma. Sinto uma grande tristeza por todo esse desperdício e só posso culpar-me a mim própria por isso.
O verdadeiro raio de sol chegou em 85, quando casaste com o Tony e tiveste a Laura, nesse mesmo ano. Gostei muito do Tony, achava que ele era bom para ti. Aliás, continuo a pensar o mesmo. E o teu casamento foi encantador, tão íntimo, só connosco, os dez. Lembras-te de quando me telefonaste a dizer que estavas grávida? Fiquei felicíssima — e comecei a sentir que afinal ainda tínhamos tempo, que o teu bebé nos aproximaria de novo. E aproximou, não foi? Tinha tanto gosto nas tuas visitas! A Laura era uma rapariguinha tão encantadora, fazia-me lembrar tanto de quando tu eras pequena! Senti que tínhamos finalmente uma verdadeira ligação e queria tratar esse laço com muito cuidado, não fazer nada que pudesse enfraquecê-lo. O Natal e o Verão passaram a ser épocas que eu esperava com prazer e sentia que podia mostrar-te, através da Laura, o quanto sempre te amara. Ao longo dos anos, fui tendo a sensação de que já não precisávamos de falar sobre aquilo que nos afastara. Só agora, pressentindo que talvez nunca mais te veja, sou obrigada a reconhecer quão enganada estava.
Sei que, quando leres estas cartas, é muito pouco provável que eu ainda consiga falar contigo. Talvez nem sequer te reconheça. Mas isso agora já não tem tanta importância, porque sinto que estás a ouvir-me, sinto que me perdoarás.
Com muito amor da tua mãe,
Alice».
Beth dobrou as folhas e repô-las no envelope. Meteu a carta entre as últimas páginas do Patinho Feio e enfiou o livro debaixo da almofada. Pegou nas caixas de jóias e no livro de James e levou-os para baixo, para a sala. Deixou-os na prateleira ao lado da lareira, onde tinha a certeza de que ele os encontraria. Falaria com ele de manhã.
De momento, tinha a sensação de estar a nadar em câmara lenta, deslocando-se com dificuldade por águas pesadas. A última carta de Alice deixara-a demasiado calma, quase vazia de emoções. Sabia que os círculos da sua tempestuosa relação se tinham afastado e aproximado de novo, que ela e Alice estavam agora no centro das coisas, tal como o seixo no centro do lago do jardim murado do pai. Em breve regressaria à sua outra vida, e teria tempo para estar sossegada, em silêncio, tempo para procurar e descobrir a filha e a mãe em que estava a tornar-se.

A MENINA E O PASSARO:DÉA


A menina e o pássaro encantado – Ruben Alves

A menina e o pássaro encantado
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003